Atividade industrial dá sinais de arrefecimento em agosto
 


A atividade industrial já dá sinais de arrefecimento em seu ritmo de expansão em agosto, segundo o Índice Gerentes de Compras (PMI) divulgado pelo banco Real. "As expectativas de que a economia tanto no Brasil quanto no mundo vai desacelerar já estão refletindo", afirma o economista-chefe da instituição, Cristiano Souza.

Elaborado com base em uma pesquisa com 450 empresas industriais do País, o índice geral recuou de 53,5, apurado em julho, para 51,1 no mês passado. O indicador abaixo de 50,0 sugere queda na economia industrial e, acima dessa marca, elevação.

O dado específico para produção puxou o resultado: de 54,2 para 51,0 de um mês para outro na medição livre de efeitos sazonais. De acordo com Souza, a intensidade mais branda de crescimento na fabricação de produtos está ligada ao menor número de novos pedidos à indústria, cujo índice ficou em 50,5 ante 53,4 imediatamente anterior.

O aquecimento do mercado interno é o que tem segurado o ritmo de crescimento, mesmo que agora menor, da indústria. O levantamento indica que, pelo sétimo mês consecutivo, os pedidos vindos do exterior se contraem. Há dois motivos para tal comportamento. O primeiro, já de longo tempo, é a valorização do real frente ao dólar, um câmbio desfavorável, como responderam os entrevistados. O segundo, a própria desaceleração mundial, que reduz a demanda externa.

Para o economista, o desaquecimento da atividade industrial captada pela PMI não é muito significativo, apenas uma sinalização de que a atividade estará mais fraca se comparada ao seu próprio desempenho na mesma etapa de 2007.

Hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga a produção industrial de julho, mas, segundo o economista do banco Real, o resultado ainda não deve mostrar o ritmo menor de expansão apurado pela PMI. Sua projeção para hoje é de crescimento de 0,7% na comparação com junho e de 7,9% em relação a igual período do ano passado.

Pouso suave
Muito embora o panorama global sinalize para recuos mais fortes em diversas economias, Souza afirma que a brasileira tem uma dinâmica que está se mostrando descolada do mundo. "Não quer dizer que o País esteja isento dos problemas externos, mas devemos passar essa fase sem perigo de recessão."

O economista diz acreditar que, apesar dos dados mais baixos apresentados pela pesquisa, ainda não houve efeito da política monetária na atividade econômica. Em casos de economias como a brasileira, as variações do juro básico levam, no mínimo, seis meses para refletir. Desde abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa Selic em 1,75 ponto percentual (p.p.). Atualmente a taxa está em 13% ao ano.

A projeção de Souza é que, a considerar que a taxa seja elevada para 14,75% anuais até o final de 2008, a demanda doméstica deverá crescer 6% em vez de 8% em 2009, quando o Produto Interno Bruto (PIB) deve expandir 3,5%.

Impacto inflacionário
Entre os índices da pesquisa, o indicativo de redução dos custos de produção se destaca como sendo uma boa notícia, classificou Souza. Pelo menos para o Banco Central, que vem mostrando preocupação com a possibilidade de repasse de preços por parte da indústria pelas brechas abertas por uma demanda aquecida e os seus impactos inflacionários.

O índice de preços dos insumos na PMI retroagiu para 65,4 após ter chegado a 72,9 em julho e a 67,5 em junho. No entanto, ainda não está abaixo do apurado em maio (64,7) e também se mantém acima da leitura média desde o início do ano, que é de 63,9. Segundo a pesquisa, os aumentos de preços de matérias-primas e de combustíveis foram citados como o fator principal por trás da inflação de custo.

O economista afirma que houve aumento menos intenso no preço dos insumos, refletindo as cotações das commodities que cederam durante os meses de julho e de agosto. "E isso terá menos impacto nos bens finais, o que pode gerar menos pressão nos preços ao consumidor e, conseqüentemente, menos inflação."


Fonte: Gazeta Mercantil
02/09/2008