Empresas mantêm emissões de debêntures, mas taxas disparam
 


Ao contrário das ofertas de ações e das emissões externas, que pararam em decorrência do agravamento da crise americana, o mercado de debêntures continua aberto, com R$1,2 bilhão em papéis sendo oferecidos neste momento aos investidores. Os compradores, porém, estão exigindo remuneração nas alturas e só aceitam papéis com prazos menores.

Além da maior incerteza com os rumos da economia mundial e brasileira, as debêntures também concorrem com o Certificado de Depósito Bancário (CDB), usados pelos bancos para captarem recursos. Esses papéis voltaram a subir nas últimas semanas, com grandes bancos nacionais oferecendo em torno de 106% do CDI para captar no mercado. Isso força as empresas emissoras de debêntures a oferecerem a uma taxa ainda mais alta para atrair investidores. 

A empresa que não está disposta a pagar taxas mais altas, não capta. Em agosto, não houve nenhuma operação de debênture. A última emissão registrada na CVM foi no final de julho, quando a Paranapanema emitiu R$950 milhões. Neste intervalo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) adiou uma emissão de R$1,5 bilhão. Só agora é que as empresas voltaram a pensar no assunto. 

Uma das companhias que está captando é a Localiza, empresa mineira de aluguel de carros. Na semana passada, fez reuniões com investidores no Rio, Belo Horizonte e São Paulo para vender R$300 milhões em debêntures simples. Ela está disposta a pagar a variação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) mais 200 pontos-base (ou cerca de 114% do indicador) por papéis que vencem em 2012. 

No ano passado, em julho, a Localiza fez uma emissão e lançou papéis para 2014 pagando em torno de 104% do CDI. Considerando que a avaliação de risco da empresa não mudou no período (as duas emissões tiveram o mesmo rating "Aa2" pela Moody's), o aumento no prêmio exigido pelos investidores em pouco mais de um ano foi considerável. 

"O mercado está mais seletivo e mais caro", avalia Silvio Guerra, diretor de relações com investidores da Localiza. A empresa, porém, precisa de recursos para financiar seu crescimento e por isso resolveu acessar o mercado. A companhia mineira tem crescido seis vezes mais que o Produto Interno bruto (PIB). Vários fatores vêm impulsionando o desempenho. Entre eles, a demanda em alta de carros pelas seguradoras (para substituir carros com sinistros dos clientes), o crescimento dos turistas estrangeiros no país (que aumenta o aluguel de carros em aeroportos) e a renovação de frotas por empresas. Dos R$300 milhões, pretende usar 80% para comprar carros e o restante para quitar dívidas. 

Além da Localiza, a Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR) entrou esta semana com pedido na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para emitir R$300 milhões. A Votorantim Finanças também anunciou que vai colocar R$500 milhões. 

Já a Duke Energy Geração Paranapanema tenta novamente colocar R$300 milhões em debêntures. A empresa já havia sondado o mercado no primeiro semestre, mas com as condições pouco favoráveis, acabou desistindo. Desde o dia 3 vem se reunindo com investidores para oferecer novamente os papéis, que agora têm garantia firme de colocação pelos bancos coordenadores da oferta (se não houver comprador, eles ficam com o papel). Em uma das séries das debêntures, a Duke oferece a variação do CDI mais 215 pontos (115% do indicador). 

Henrique Teixeira Alvares, sócio da gestora Neo Investimentos, avalia que o momento agora é de rever e repensar estratégias. "As empresas vão ter que rever as premissas de investimento e ver se são rentáveis ou não." Para o gestor, os projetos de investimento agora terão menor participação de dívida (como as debêntures) e mais capital. 

"Todo mundo deveria botar o pé no chão e deixar o cenário clarear um pouco", afirma André Schibuola, sócio da Precision Asset Management, gestora especializada em papéis de renda fixa e dívida. "Quem precisar de recursos agora, vai ter que pagar mais caro, senão não capta." 


Fonte: Valor Econômico
22/09/2008