Meirelles diz que Brasil "pode pegar só uma gripe" com crise
 


No momento em que os investidores e empresários se perguntam se a crise americana terá reflexos no Brasil, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, cauteloso como de costume, disse que os fundamentos da economia brasileira estão fortalecidos para passar pela crise com poucas seqüelas.

"Recorrendo à medicina, poderia dizer que se fosse no passado o Brasil poderia pegar uma pneumonia, mas agora talvez possamos pegar apenas uma gripe", ilustra. A afirmação de Meirelles foi feita na palestra " Ações necessárias para o desenvolvimento do Brasil", realizada ontem em evento promovido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). O objetivo do encontro era apresentar como o País poderá se comportar com o agravamento da maior crise financeira dos Estados Unidos. Apesar do otimismo, Meirelles reconhece que a economia mundial irá desacelerar em 2009 e as perdas com o problema já são fortes.

O presidente do BC informou que esteve durante toda a semana nos Estados Unidos analisando os desdobramentos da crise. "Posso dizer que não é momento de comemoração, pois o problema é sério. Uma crise nunca é boa para ninguém. Nós não subestimamos os efeitos do acontecimento para o Brasil, mas posso afirmar que estamos serenos de que o Brasil fez seu dever de casa", salienta Meirelles.

Ao longo do último trimestre, o Banco Central vinha adotando uma série de medidas restritivas à expansão do crédito e do consumo, dentre elas, a elevação da taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano, na tentativa de conter a inflação, fora da meta prevista para 2008 e 2009.

Com base nessas intervenções, Meirelles aproveitou para informar as diferenças da economia brasileira e americana, principalmente no setor de crédito imobiliário, pilar da crise. "Se olharmos os antecedentes, podemos ver que o processo se iniciou com a inflação dos imóveis no EUA. Isso ocorreu porque houve um longo período de estabilidade, seguida por um baixo custo do crédito", disse. O presidente do BC informa que no mesmo momento a China estava importando para o país produtos muito baratos, fruto do baixo custo de mão de obra do país. "Os EUA tiveram conforto com o preço dos importados, mas outros itens como bens de serviço estavam tendo aumento de preço", informa.

Além disso, como o volume de crédito americano é superior ao Produto Interno Bruto (PIB) do país, enquanto no Brasil chega a 37%, muitas pessoas que não podiam pagar conseguiram crédito facilmente, fator que mexeu com o mercado. "Os bancos geravam ativos, emprestavam e vendiam ao mercado financeiro. Um processo chamado de diversificação de riscos. Porém, ao contrário do que se esperava, parte do risco ainda ficou com as instituições financeiras", informa.

Meirelles acrescenta que os acontecimentos da última semana mostram que a crise saiu da área imobiliária e se alastrou para outros setores. O pedido de concordata feito na segunda-feira (15) pelo Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos americano, provocou quedas generalizadas nas principais bolsas de valores de todo o mundo. No mesmo dia, o Bank of America anunciou ter acertado a fusão com o grupo de investimentos Merrill Lynch, em um negócio de cerca de US$50 bilhões que reforçou o tom pessimista a respeito da crise nos Estados Unidos. O Lehman Brothers e o Merrill Lynch, duas instituições-símbolo de Wall Street, vinham sofrendo prejuízos bilionários desde o ano passado com o aumento da inadimplência de pessoas com dívidas imobiliárias.

PACOTE AMERICANO
O presidente do BC elogiou a atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que anunciou a injeção de US$95 bilhões no sistema bancário por meio de operações de refinanciamento. "A compra de ativos visa estabilizar os preços para os bancos operarem normalmente. É um movimento importante, bem pensado. Digo que são medidas prudenciais", defendeu. Meirelles disse ainda que o Brasil aproveitou os anos para se fortalecer contra crises externas. Entre os fatores citados pelo presidente está a eliminação da divida cambial doméstica. "Antes o dólar subia e gerava um aumento da dívida pública. Hoje ocorre o contrário".

Além disso, a queda da dívida líquida do setor público, de 56% em 2002 para 40% do PIB, e a elevação das reservas são fatores que contribuem para a solidez no País. "Criamos um clima de previsibilidade ao investidor. Sabemos que se espera uma desaceleração das economias no mundo e o Brasil faz parte dele, mas estamos em condições de passar pela crise com menos problemas", conclui.

As declarações casam com o ponto de vista de Márcio Cypriano, presidente do Bradesco. "As operações no Brasil são bem diferente e não temos empréstimos com clientes subprime [de alto risco]. O Brasil fez sua lição de casa. Se fosse há cinco anos, o dólar teria disparado sem controle. Agora a população pode ficar mais tranqüila", encerra.


Fonte: DCI
23/09/2008