Calçados e têxteis mantêm previsões
 


Apesar da turbulência no mercado financeiro internacional, indústrias têxteis e calçadistas estão mantendo as projeções feitas para o fim de 2008. Com apenas dois meses e meio de produção do ano ainda por negociar, as empresas estão mais preocupadas com a demora da chegada do calor. Para 2009, elas avaliam o cenário como de "incerteza" em relação aos impactos da crise sobre a demanda interna e externa do setor.

"As condições para o crescimento se mantêm em 2008, mas 2009 é uma incógnita", disse o diretor financeiro da Calçados Bibi, de Parobé (RS), Rosnei Alfredo da Silva. A empresa mantém a projeção de faturamento de R$110 milhões neste ano, 10% acima de 2007, com uma produção estável em 3,4 milhões de pares de calçados infantis. "Estamos vendendo produtos de maior valor agregado", comentou. 

Conforme o executivo, as vendas de fim de ano estão demorando um pouco mais do que o esperado para deslanchar em função do clima, mas a situação "não é nada que preocupe". A empresa já está com a produção vendida até a metade de outubro, no mesmo patamar verificado em igual período do ano passado, e exporta 30% da produção para 65 países. Os Estados Unidos têm uma participação inexpressiva, o que é positivo nesse momento, avalia Silva. 

A Piccadilly, com sede em Igrejinha (RS), está sentindo uma leve desaceleração nas encomendas para outubro, que devem fechar estáveis em comparação com o mesmo período de 2007, enquanto os meses anteriores vinham apresentando altas em torno de 10%. O diretor-presidente da empersa, Paulo Grings, percebe que os lojistas estão mais "cautelosos", mas ele tem dúvidas se isso é efeito da crise internacional ou do clima. Mesmo assim, ele mantém a previsão de faturamento de R$240 milhões a R$250 milhões em 2008, ante R$200 milhões em 2007. 

A crise financeira também não alterou a relação entre as indústrias e os lojistas. A Piccadilly financia as vendas com caixa próprio e não vai aos bancos para tomar linhas de capital de giro nem adiantamentos de contrato de câmbio (ACC). A Bibi também não toma ACC e financia com recursos próprios as vendas com até 75 dias de prazo para pagamento. Acima disso, utiliza linhas bancárias e repassa os custos aos clientes. 

O presidente da Buettner, João Henrique Marchewsky, disse que a crise, por enquanto, afetou pouco as encomendas e não acredita que as vendas de fim de ano estarão comprometidas, em função do Natal, tradicionalmente a melhor data para o setor têxtil. Mas está preocupado com os efeitos da crise em 2009. "Acredito que o problema ficará para o ano que vem." 

A empresa mantém a previsão de crescer 5% este ano em relação a 2007, mas nas estimativas para 2009 há bastante cautela. "Essa é a ponta da crise", afirma ele, que prevê 2009 igual a 2008, sem crescimento. Segundo Marchewsky, o varejo já demonstra algum receio com a crise, com recuo no volume de encomendas em setembro. "Normalmente, entramos outubro com 60% da produção vendida. Dessa vez, vamos entrar com 40%." Ele acredita que essa "cautela" vai se normalizar nos próximos meses.  

O diretor de controladoria e planejamento da Lepper, Zeno Fischer, disse que não há alteração no quadro de vendas da empresa, que segue com alta de 10% em setembro em relação ao mesmo mês de 2007. "As vendas vão bem, só creio que o fim do ano não vai mais ser tão maravilhoso quanto poderia ser", diz ele. A Lepper já revisou o tamanho do crescimento para 2009 por conta da crise dos EUA, ainda que a alteração não seja significativa. Ela esperava crescimento de 15% no faturamento do ano e agora a projeção é de 12%. "Tenho mais receio é de uma ressaca para o início do ano que vem", afirma. 

Fischer diz que a empresa encerra setembro com 40% da carteira vendida, o mesmo volume de outros anos. A Lepper não alterou a política de vendas junto aos clientes e espera "ajuda" da desvalorização do real, pois ela inibirá as importações e a empresa vende só 5% da produção no exterior. 

A crise também passa longe da Recco Lingerie, de Maringá (PR), uma das maiores fabricantes de camisolas e pijamas do país. "Não sentimos crise nenhuma", afirma o gerente comercial, Marcelo Recco. A empresa produz cerca de 120 mil peças por mês, e apenas 3% é destinado ao exterior. Recco conta que a perspectiva para o semestre é de crescimento de 10% a 15% sobre o resultado obtido em igual período de 2007. As encomendas para o fim do ano estão dentro do esperado e vão até novembro. 

Para a Cia. do Terno, varejista de vestuário masculino com 82 lojas, a turbulência do mercado financeiro já trouxe desdobramentos negativos, pois 70% das vendas são de produtos importados da China, cujo custo aumentou com a desvalorização do real frente ao dólar. Sem condições de repassar esse ônus cambial à clientela, formada pelas classes B e C, a empresa vai ter que reduzir as margens de comercialização, informou Pedro Paulo Drummond, presidente da rede. 

Em Pernambuco, a expectativa dos empresários é que a crise financeira demore a ter reflexos negativos na atividade. Por isso, o planejamento de compras e a expectativa de vendas para o fim de ano foram mantidos. A Esposende, rede de 47 lojas de sapatos no Nordeste, mantém a projeção de comercializar 10% mais calçados neste fim de ano em relação a 2007. Segundo Eduardo Castro, diretor comercial da rede, as contratações de fim de ano para o reforço das lojas já foram feitas com previsão de vendas 10% maior. "Para a população de mais baixa renda, os resultados da crise devem demorar a ser sentidos", diz o executivo. 

A fábrica e rede de lojas de biquíni Bumbum Ipanema, do Rio, também ainda não sentiu os efeitos da crise. "A crise ainda não nos afetou, mas, se perdurar, pode até afetar", disse André Berardinelli, diretor administrativo. Segundo ele, está mantida a meta de atingir aumento real de 5% para o faturamento deste ano, que deverá chegar a R$20 milhões. 

Para ele, o fato de a marca ser "muito vendável" e de não ser comercializada para grandes magazines, "que brigam por qualquer tostão", está mantendo as perspectivas de bons negócios para o verão. As exportações, que devem ficar entre 20% e 30% do faturamento deste ano, foram realizadas durante o verão europeu, onde estão os maiores clientes da empresa. 


Fonte: Valor Econômico
29/09/2008