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Héctor Núñez, presidente no Brasil do Wal-Mart, maior rede de supermercados do mundo, com sede nos Estados Unidos, afirmou recentemente que apesar da crise internacional, a rede deve ter em 2008, o melhor Natal da história da companhia no País. "Sabemos que o consumidor brasileiro pode ter certa cautela, mas não esperamos queda no consumo."
O Pão de Açúcar também afirmou por meio de sua assessoria que mantém suas meta de crescimento para o ano. A companhia tem metas de vendas acima de R$20 bilhões, com um crescimento de vendas na comparação da mesma base de lojas do ano anterior acima de 6,5%.
A expectativa das redes supermercadistas pode parecer desconectada com o cenário atual. Mas não se trata de excesso de otimismo. Em meio ao caos, "o consumo brasileiro continuará aquecido e o comércio pode manter boas perspectivas para este ano", afirma Fernanda Della Rosa, gerente do departamento de economia da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio-SP).
"Graças a fatores econômicos altamente favoráveis como aumento do emprego e da renda, praticamente não sentiremos o impacto da crise externa neste ano", afirma Fernanda. O volume de famílias endividadas, segundo pesquisa da Fecomercio, saltou de 45% em agosto, para 53% em setembro.
Somente uma restrição de crédito poderá mudar este cenário, afirma Fernanda. O que, por enquanto, não está acontecendo. "O consumidor pouco se importa com alta de juros, o problema é a redução do prazo", explica.
Núñez afirmou que tanto o Wal-Mart, quanto seu parceiro de crédito, o Unibanco, não cogitam repassar o aumento de juros para o consumidor. O executivo alerta, porém, que , em dado momento, esse repasse será inevitável. O mesmo vale para o repasse de preços da indústria.
Por enquanto, o cenário é de aparente tranqüilidade. "A confiança do consumidor está ótima, 140 pontos de um índice que vai de zero a 200", afirma Fernanda. "O mundo está ruindo, mas o consumidor brasileiro ainda sente que pode comprar."
Núñez afirmou que o maior impacto sentido pela companhia no Brasil é a variação do câmbio, o que pode comprometer as importações. "Também vamos sentir um aperto no crédito e aumento de juros, com uma Selic caminhando para 15,3% em médio e longo prazo", afirma Núñez. "Mas estamos otimistas com os fundamentos da economia brasileira e não vamos mudar nossos planos de expansão por causa da crise." O Wal-Mart prevê investimentos da ordem de R$1,6 a R$1,8 bilhão no Brasil para 2009, na abertura de 80 ou 90 lojas. Só neste ano, a rede está aplicando R$ 1,2 bilhão em 36 unidades.
Ao que tudo indica, o setor supermercadista não vai desistir tão facilmente dos bons ventos que estavam previstos para 2008. Depois de comemorar no ano passado a recuperação das perdas registradas em 2006 e deixar para trás desempenhos em vendas que não ultrapassavam a barreira dos 5% - isso quando os indicadores não foram negativos - , até agosto, o setor acumulava um aumento de 9,36% nas vendas.
Esse desempenho fez com que a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) aumentasse sua expectativa de crescimento para o ano entre 4,5% e 5% para uma alta de 8%, o que vai configurar o melhor desempenho dos últimos dez anos. "Só se acontecer um desastre não atingiremos esta meta", afirma Sussumu Honda, presidente da Abras. "A crise americana ainda não chegou a economia real."
Segundo Honda, a porta de entrega será o dólar. "Mas o varejo já está adiantado em suas negociações para o Natal, por isso eu não acredito que teremos alterações no valor dos produtos na gôndola." Aliás, Honda explica que o consumidor está atento às variações e qualquer mudança brusca pode impactar os resultados de final de ano. "O preço das commodities subiu muito este ano e tivemos um aumento de faturamento e queda no volume de vendas". Neste primeiro momento, ele acredita que um possível aumento do custo e seletividade na oferta de crédito possa impactar a venda de bens-duráveis e semi-duráveis.
O consultor Marcos Gouvêa, da GS&MD, também acredita que os bens-duráveis serão mais impactados com a contenção de crédito e redução de prazo do financiamento. "O consumidor de classe média e alta, que acompanha as notícias, deve começar a conter seus gastos. O Natal que se esperava já não será tão bom assim", afirma.
Redes de eletroeletrônicos já estão tomando providências para evitar perdas. Pesquisa realizada pela consultoria Shopping Brasil, especializada no monitoramento do varejo, mostra que as redes de eletroeletrônicos optaram por aumentar os prazos de pagamento como forma de driblar o aumento dos juros, fazendo com que a prestação continue cabendo no bolso do consumidor. Assim, as ofertas de longo prazo, ou acima de 13 meses, já são superiores às de médio prazo, de 9 a 12 meses.
A mudança da estratégia foi observada pelo monitoramento dos anúncios das principais redes varejistas nacionais em meios impressos - jornais, revistas e encartes promocionais. Dos 34.558 anúncios dos maiores varejistas brasileiros analisados em setembro nas principais cidades do País, 47% traziam oferta com prazos superiores a 13 meses, contra 36% em junho. Já as promoções de médio prazo, que eram 56% em junho, passaram a ser 44% no mês passado. Com isso, analisa a Shopping Brasil, foi registrada uma queda de 20% no número de anúncios de médio prazo e crescimento de 10% no longo prazo nos últimos quatro meses, quando o comércio começou a sentir a elevação da Selic pelo Banco Central iniciada em abril. "O varejo fez isso para não mexer no valor da prestação e não perder vendas", afirma o diretor da consultoria, José Resende.
O levantamento mostrou ainda o aumento da taxa média da taxa dos juros nos últimos meses praticado pelo varejo. Partiu de 4,32% em abril para 4,84% em setembro.
BAHIA Embora venha mantendo a média de 10% de crescimento ao longo deste ano, diante da crise internacional, o varejo baiano começa a substituir o otimismo pela cautela no último trimestre, quando ocorre o melhor período de vendas, com o Natal. "Já se observa um comportamento cauteloso dos comerciantes no fechamento de negócios com fornecedores para o Natal. Protela-se o fechamento e o indicativo é de volumes de compras inferiores aos previstos inicialmente", diz Paulo Motta, presidente do Sindicato dos Lojistas do Estado da Bahia (Sindilojas).
A expectativa ainda é otimista quanto ao resultado das vendas de final de ano. "Devemos ter um crescimento de 8% com relação ao Natal do ano passado", diz Paulo Motta. O prognóstico dele coincide com o da gerente de marketing do Shopping Barra, Karina Brito. Ela aposta no aumento das vendas e no fluxo de clientes. "O mercado vive um momento de especulação. Não acredito que a crise se prolongue até o final do ano".
Fonte: Gazeta Mercantil 01/10/2008 |