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Uma semana depois de reconhecer que teria perdas com operações de derivativos cambiais, a Aracruz apresentou a conta ao mercado: R$1,95 bilhão. O valor equivale a quase o dobro do lucro registrado pela fabricante de celulose no ano passado, de R$1,045 bilhão. Ao contrário, porém, do que fez a Sadia, a Aracruz não liquidou as posições nem teria condições de fazê-lo contando apenas com recursos próprios, uma vez que a posição de caixa da empresa é de apenas R$1,2 bilhão.
A reação dos investidores ao anúncio do valor das perdas pôde ser resumida no comportamento da ação da Aracruz, que despencou 24,81% apenas no pregão de sexta-feira. Desde o dia em que admitiu que possuía uma exposição a derivativos acima dos limites estabelecidos, a empresa perdeu mais de 40% de seu valor de mercado.
As poucas informações a respeito da operação deram margem a muitas especulações. Uma delas é a de que uma das contrapartes da companhia na operação de derivativos seria o Banco Safra, cuja família também controla a Aracruz, ao lado da Votorantim Celulose e Papel (VCP). Se confirmado, o negócio configuraria um gravíssimo conflito de interesse, avaliam fontes de mercado. Procurada pela Gazeta Mercantil, a Aracruz informou que não se pronunciaria sobre o assunto.
Como as operações continuam em aberto, o prejuízo com os derivativos não aparecerá no balanço do terceiro trimestre, que a empresa divulga no próximo dia 17. Ao contrário, o saldo será positivo em R$25 milhões no período. O efeito da variação cambial, no entanto, aumentará a dívida da companhia em moeda estrangeira em R$330 milhões.
Para atenuar o impacto de novas altas do dólar no resultado, a Aracruz informou que vem mantendo uma posição comprada em dólar futuro na BM&F de US$538 milhões, com taxa média de R$ 1,91. A companhia também possui US$140 milhões vendidos em Non Deliverable Forward (NDF) - instrumento que trava uma taxa para compra de dólares para uma data futura - com vencimento em novembro de 2008, contra uma posição comprada de US$60 milhões com vencimento em outubro de 2008.
De acordo com o professor de finanças Ricardo Almeida, do Ibmec São Paulo, a Aracruz sinalizou no fato relevante que não precisará de recursos imediatamente, o que pode dar tempo para a companhia estruturar uma captação de dívida para liquidar a posição. O problema, afirma, é que a restrição de liquidez do mercado deve dificultar o negócio.
Segundo Almeida, chama a atenção o fato de que a Aracruz já possui uma espécie de "hedge natural", ou seja, a receita projetada é equivalente à dívida em dólares. "A empresa não tinha necessidade de se expor dessa maneira com derivativos", observa.
O analista Peter Ping Ho, da Planner Corretora, não condena a Aracruz pelas operações. "As empresas do setor têm margens estreitas e precisam se arriscar para entregar resultados para o mercado", afirma. Ele considera que o principal problema da companhia foi ter perdido o controle das perdas que poderia sofrer com esse tipo de negócio. O analista vê a forte alta do dólar como especulativa e acredita que a moeda norte-americana não manterá a tendência de valorização. "Provavelmente a perda efetiva da empresa será menor que o valor anunciado", projeta.
Os investidores, porém, deram mostras de que não pretendem esperar para ver. "Se eu quisesse especular com dólar, não investiria em uma produtora de papel e celulose", reclamou um gestor de fundos que preferiu não ser identificado. Ele lembra que, da mesma forma que o dólar pode cair para R$1,50, a moeda pode alcançar R$2,50, caso a crise financeira se agrave ainda mais.
Pelas projeções da Ágora Corretora, o resultado esperado para a Aracruz neste ano deve passar de um lucro de R$834 milhões para um prejuízo de 727,5 milhões. A corretora reduziu o preço-alvo para os papéis da companhia em 37,8%, para R$9,20. Para os analistas da Ágora, a notícia é bem negativa e coloca em risco a credibilidade da empresa.
GRAU DE INVESTIMENTO As agências de avaliação de risco Moody’s e Standard & Poor’s (S&P) colocaram a classificação da Aracruz em observação para possível rebaixamento após o anúncio do valor das perdas. A empresa possui avaliação equivalente a grau de investimento pelas duas agências, com nota superior, inclusive, à do Brasil, que ainda não obteve o investment grade pela Moody’s.
A classificação da Aracruz poderá ser reduzida caso a empresa tenha perdas efetivas superiores às anunciadas ou caso a fusão com a VCP não ocorra, afirma a Moody’s, em relatório. "Embora essas perdas ainda não tenham tido um efeito caixa, elas trazem riscos contingentes à empresa caso o real se mantenha nas atuais cotações frente ao dólar nos próximos 12 meses", disse o analista de crédito Marcelo Costa, da S&P.
Fonte: Gazeta Mercantil 06/10/2008 |