Até o ministro já acha que a crise é grave
 


A queda das bolsas asiáticas na madrugada de ontem, entre 4% e 5%, já dava sinais de que o início desta semana prometia ser conturbado. Mas dificilmente alguém imaginava o quão ruim seria. A bolsa abriu o dia já em forte baixa e menos de 20 minutos depois da abertura o caos já estava instalado. O Índice Bovespa caía mais de 10% e o pregão foi suspenso por meia hora (mecanismo conhecido como "circuit breaker").

Nesse intervalo, o investidor teve tempo de respirar, tomar uma água, mas isso não foi suficiente para que os ânimos se acalmassem. O mercado voltou a funcionar com quedas acentuadas e menos de uma hora depois o índice já caía 15,50%, acionando o segundo "circuit breaker", desta vez de uma hora. Desde que este mecanismo de interrupção dos negócios foi criado pela Bovespa, em 1997, esta é a segunda vez que ele é acionado duas vezes no mesmo pregão. A primeira foi em 10 de setembro de 1998, no auge da crise da Rússia, quando o Ibovespa fechou o dia em baixa de 15,82%. Mas, diferentemente daquele dia, o índice ontem teve forças para fechar em queda de apenas 5,43%, aos 42.100 pontos. 

Nada como a bolsa cair mais de 15% para se achar uma baixa de mais de 5% pequena. De qualquer forma, a pontuação de ontem é a menor desde 5 de março do ano passado, quando o Ibovespa estava em 41.179 pontos. Mas o que de tão extraordinariamente positivo ocorreu para atenuar a sangria do mercado? Internamente, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, vieram a público anunciar a adoção de medidas para restabelecer as linhas de crédito internacionais para as empresas. Essas linhas praticamente desapareceram nas últimas semanas com o agravamento da crise americana. O mercado aplaudiu de pé as medidas, no entanto, criticou a demora. "O governo deixou o fogo atingir o terceiro andar em um prédio que só tem quatro andares para chamar os bombeiros", diz um gestor de recursos.

Mais do que as medidas em si, o fato de o governo, enfim, ter dado o braço a torcer de que a situação é grave ajudou a acalmar o mercado. "O investidor se sente mais seguro em saber que o governo está a postos para agir se a situação ficar ainda pior", diz o gestor.  

Depois de passar as últimas semanas num exercício diário de auto-engano, dizendo que a crise não afetaria o Brasil, o ministro Mantega se rendeu aos fatos e disse que o país não passará imune à este turbilhão, que deve ser o pior desde o crash de 1929, quando houve o debacle do mercado americano. "Para um governo que dizia que esta crise chegaria no Brasil como uma marola, até que eles caíram na realidade", lembra o diretor de uma corretora. Já com relação especificamente ao mercado acionário, Mantega disse que a Bovespa está passando por um movimento de manada, quando todo mundo vende e, com relação a isso, o governo não tem o que fazer. Mal sabe o ministro que a bolsa é um espelho fiel da economia local e externa.

AJUDA AMERICANA 
Por uma feliz coincidência, ao mesmo tempo em que Mantega e Meirelles anunciavam as medidas, os índices da bolsa americana também melhoravam de forma significativa. O que se comentava é que a melhora teria ocorrido graças a uma possível reunião entre o secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, para discutirem a adoção de novas medidas, além do pacote de socorro de US$850 milhões. Apesar da redução das quedas, o índice Dow Jones fechou em baixa de 3,58%, aos 9.955 pontos. Essa é a primeira vez que o índice encerra os negócios abaixo dos 10 mil pontos desde 26 de outubro de 2004. 

O mercado ontem foi tão assustador que, pela primeira vez, a Bovespa divulgou como seria a regra para um terceiro "circuit breaker" no dia de ontem. Isso era algo impensável há alguns meses, quando o Ibovespa beirava os 75 mil pontos, após o país ser alçado ao seleto grupo de nações consideradas grau de investimento pelas agências de classificação de risco. Pelo comunicado da bolsa, se a queda do Ibovespa chegasse a 20%, o pregão seria interrompido até as 16h30. Após esse horário, os negócios voltariam ao normal até as 17h (horário de fechamento do pregão), sem limite de oscilação. Alguns analistas criticaram a medida. Para eles, faria mais sentido suspender os negócios até o dia seguinte do que deixar os investidores jogados à própria sorte nos 30 minutos finais. 

Há quem lembre também que as perdas de ontem foram as mais salgadas de muito tempo, especialmente para os investidores estrangeiros, que acumularam as quedas das ações e mais a alta do dólar ante ao real. Somando o pior momento do Ibovespa (queda de 15,50%) e do dólar (alta de 7,62%), o investidor internacional chegou a perder mais de 23% numa tacada só. "Eu nunca tinha visto um dia desses", diz um corretor. 


Fonte: Valor Econômico
07/10/2008