Varejo Seletivo
 


A "festa" do crédito acabou e o cenário mudou completamente para as empresas ligadas ao consumo em relação ao primeiro semestre do ano. Os investidores começam a listar quais companhias do setor devem ser mais prejudicadas e quais tendem a ser menos abaladas pela recente retração nas linhas de crédito disponíveis nos bancos e pela alta no custo do dinheiro. As varejistas, em particular Renner, Lojas Americanas e B2W, estão entre as companhias mais penalizadas porque, além de uma esperada retração nas vendas parceladas, precisam de capital para bancar a expansão. 

A AmBev, em contrapartida, passou a ser vista como um porto seguro por ser uma grande geradora de caixa - a empresa vende muito e gasta pouco. "As ações das empresas de rápido crescimento, que precisam investir, estão sendo deixadas de lado, enquanto os papeís das empresas já consolidadas começaram a ser mais atraentes", explica um analista. 

Por conta dessa lógica, as ações da Souza Cruz subiram 12,8% nos últimos 30 dias, apesar da crise. Natura caiu apenas 1% e a AmBev, 3%. Já Lojas Americanas caiu 35,6%, Renner teve baixa de 34,2% e Pão de Açúcar, de 11,6%. 

Para comprar cerveja e refrigerante, o consumidor não precisa recorrer às prestações. Por este mesmo motivo, espera-se que os supermercados estejam mais "blindados" à escassez do crédito, diz um analista. No Grupo Pão de Açúcar, 98% das compras são pagas à vista, 50% delas em dinheiro. A demanda por alimentos é ainda pouca elástica - não explode em tempos de bonança nem despenca em tempos de vacas magras. 

Em uma situação extrema, o consumo de bens não-duráveis pode até ser beneficiado pela retração no crédito, devido à menor disputa com outros setores, como carros e eletroeletrônicos, pelo chamado "pocket share", a participação no orçamento do consumidor. Mas, no Brasil, essa não é a percepção dos investidores em relação ao Grupo Pão de Açúcar. 

Segundo o analista de uma corretora, apesar de a empresa estar em uma situação mais confortável, preocupam o endividamento e o capital que o Pão de Açúcar precisará investir em 2009 na sua expansão. Ele estima que a rede de supermercados terá de desembolsar uma cifra próxima a R$1 bilhão. No segundo trimestre, as finanças do Grupo Pão de Açúcar já foram afetadas pelo aumento do custo do dinheiro. O resultado financeiro líquido da companhia ficou negativo em R$147 milhões no fim do primeiro semestre, valor 30% maior que o registrado em igual período de 2007. 

Lika Takahashi, chefe de análise da Fator Corretora, afirma que o mercado agora deve privilegiar as empresas com situação financeira mais folgada e caixa líquido. "Para épocas instáveis, nada melhor do que escolher empresas estáveis", diz, avaliando que as melhores opções de investimento, neste momento, podem estar em empresas que já têm um histórico de resultado bom e que não decepcionaram o mercado. Ela cita, por exemplo, o caso das elétricas, em que não há grandes saltos em receitas. 

Sobre a AmBev, Lika, da Fator, lembra que este ano o papel esteve muito pressionado. Primeiro por conta da compra da Anheuser-Busch, fechada pela sua controladora, a InBev. O mercado temia que a brasileira pudesse ser envolvida na operação, como um instrumento para captar recursos para fechar o negócio, o que não se confirmou. Depois houve a lei seca, que afetou projeções para a ação. Mas a empresa é boa pagadora de dividendos. 

Fabio Anderaos, estrategista da Itaú Corretora, lembra que a AmBev não é um papel barato e a empresa possui uma base acionária concentrada nas mãos de alguns acionistas, que possuem posições muito grandes nos papéis, o que inibe maior instabilidade. 

Na avaliação de Anderaos, as ações de Lojas Americanas e B2W têm sofrido mais porque essas empresas venderam histórias de crescimento, possuem índices de preço/lucro (PLs) muito elevados e um certo endividamento. Segundo ele, essas companhias sofrem porque o mercado pode prever desaceleração da economia e, consequentemente de suas vendas, aliada à dificuldade de acesso a crédito. "Essas empresas que focam no crescimento, ou seja, têm uma promessa de resultado melhor lá na frente, poderão passar por desaceleração em um cenário de crédito mais difícil, uma vez que precisam tomar mais financiamentos." 

Lika, da Fator, diz que, no caso de B2W e Lojas Americanas, o problema talvez possa nem ser tanto o acesso ao crédito, mas começam a surgir algumas análises afirmando que talvez o Natal não seja tão aquecido como se poderia esperar. "O desempenho das vendas delas não dependerá tanto do crédito, mas da forma de venda, ou seja, de prestações que caibam no bolso do consumidor." 

Além das preocupações com a desaceleração, Lika vê um movimento de saída de investidores dos papéis. "Essas empresas venderam histórias de expansão e já entregaram grande parte delas. Então, é natural que alguns investidores enxerguem potencial menor de crescimento no futuro e se desfaçam de posições. Em um momento como o atual, essa saída pode ser exagerada", diz. 

Lika traça um cenário de desaceleração tanto por um provável crescimento menor do PIB quanto por uma redução de investimentos das empresas. "As companhias devem adiar planos de expansão e essas revisões devem ser vistas como positivas pelo mercado, como uma readaptação ao novo cenário pós agravamento da crise." 

O diretor de relações com investidores da Lojas Renner, José Carlos Hruby, disse ontem que a rede apresenta lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) suficiente para sustentar os planos de expansão, que prevêem a abertura de 15 lojas este ano e número semelhante em 2010. 
Conforme o executivo, no fim de 2007 a dívida líquida combinada da Renner e da Leader, cuja aquisição deve ser confirmada em assembléia de acionistas no dia 20, era equivalente a apenas 1,6 vez o lajda de R$330,1 milhões das duas empresas. Só a Renner gerou R$286 milhões desse total e as projeções das instituições financeiras que acompanham a empresa são de R$300 milhões a R$350 milhões para 2008 e em torno de R$450 milhões para 2009. 

Além disso, segundo Hruby, a Renner também tem recebido ofertas de bancos de fomento para financiar a abertura de lojas nas regiões Norte e Nordeste. "A empresa está numa situação confortável", assegura o executivo. Os planos de expansão da Leader, de 38 para 44 lojas neste ano e para 55 em 2009, também estão mantidos. 

"E este cenário nebuloso (do mercado financeiro) não vai durar a vida inteira", comenta Hruby. Ele acredita que a situação pode melhorar no início de 2009 e, nesse caso, a empresa poderá emitir títulos de dívida para ajudar a financiar a expansão. Até a explosão da crise financeira, a Renner planejava emitir debêntures para bancar a compra da Leader, mas o aumento dos custos de captação levou-a a substituir a operação por um parcelamento direto com os controladores da rede incorporada. 

Segundo Hruby, apenas 15% das vendas da Renner, na modalidade zero mais oito parcelas com juros de 5,99% ao mês, são financiadas com capital de giro captado no mercado. De acordo com ele, até agora os bancos que atendem a rede não deram nenhuma sinalização de que pretendem aumentar as taxas e também não há planos para alterar a modalidade zero mais cinco vezes sem juros, financiada com capital próprio. 


Fonte: Valor Econômico
08/10/2008