Crítica de Serra a Meirelles surpreende tucanos
 


O PSDB decidiu reunir o Conselho Superior do partido a fim de uniformizar o discurso e as propostas dos tucanos para o combate à crise dos mercados. O encontro será marcado para a próxima semana e estabelecerá os parâmetros do diálogo do partido com o governo em relação às medidas para amenizar os impactos da crise na economia brasileira. "Não vamos tomar uma posição oportunista nem imprudente", disse o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra.

Causou surpresa entre os tucanos a declaração do governador José Serra contra a política monetária. Menos pelo conteúdo, que Serra repete há anos, que pelo local, à saída de uma audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto. Os tucanos do Congresso não têm interesse em enfraquecer o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles - há má-vontade em relação ao ministro Guido Mantega, que mantém bom entendimento com Serra. 

Do Conselho Superior do PSDB participam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os governadores e ex-governadores estaduais, o presidente e ex-presidentes tucanos, além dos líderes no Senado e na Câmara. A reunião pode ocorrer já na próxima semana, mas desde já os tucanos se dedicam a intensas consultas com economistas ligados ao partido, como Pedro Malan e Armínio Fraga, e de outros grupos acadêmicos. 

Em conversa com um deputado tucano, José Serra disse que não era sua intenção falar, à saída do Palácio do Planalto, sobre a crise econômica. Questionado pelos jornalistas, não teria resistido a criticar o Banco Central. Segundo o depoimento do deputado, o governador teria dito: "Esses caras estão destruindo o país com essa política monetária". No Congresso houve quem visse uma tentativa de Serra de demarcar território com um discurso que sempre foi dele e hoje é assumido pelos bancos centrais do mundo. 

Eleitoral ou não, a declaração de Serra não causou maiores incômodos no Palácio do Planalto. A reunião foi solicitada por Serra no domingo à noite para a segunda-feira, em telefonema ao chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho. Para tratar de assuntos administrativos de São Paulo. Num dos intervalos da conversa - enquanto se aguardava a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) -, o governador já fizera crítica semelhante a um ministro. Depois ele repetiu os mesmos argumentos ao presidente da República. 

Lula ouviu calado, mas isso não quer dizer que ele concorde com a posição de Serra. Nas palavras de um assessor de Lula, não há nenhum "estresse" - todos no Palácio do Planalto saberiam que essa é a posição histórica de Serra. É verdade que o governo preferiria ver os juros baixando e às vezes concorda, às vezes discorda de Meirelles, mas tem respeito por ele. Além disso, o presidente não tem nenhum interesse em desestabilizar o presidente do Banco Central. 

Os líderes da oposição tiveram anteontem uma longa reunião com o presidente e os diretores do Banco Central, sugerida pelo líder do PSDB, José Aníbal. Os líderes dizem que têm condições de votar a MP - que ontem mesmo começou a receber emendas - que permitirá a compra da carteira dos bancos menores - algo em torno de 30, segundo se falou na reunião - e dar mais dinheiro aos maiores. A idéia é regularizar o crédito interbancário, principalmente o crédito para as exportação, que já está sendo afetado pela crise. 

Além de Aníbal, estiveram com a direção do Banco Central o líderes do Democratas, Antonio Carlos Magalhães Neto, e Fernando Coruja (PPS). Os líderes dizem que o BC demonstrou receptividade à idéia, mas que o ministro Guido Mantega (Fazenda) é contrário. Pela proposta da oposição, o governo retiraria da pauta três projetos de lei em regime de urgência. Como contrapartida, eles votariam as medidas provisórias que estão trancando a pauta, como, aliás, votaram a MP 435 anteontem, que autoriza o BC a ser favorecido por emissões de títulos do Tesouro e permite o comércio internacional bilateral com as moedas locais. 

Ocorre que entre os três projetos de lei em regime de urgência - que também trancam a pauta - está o que cria o Fundo Soberano. É uma antiga pendência de Mantega com a oposição, que quer mais tempo para discutir o fundo. O ministro da Fazenda, segundo o líder do PSDB, ficou de responder ontem, o que não ocorreu até o início da noite. 

No ritmo proposto pela oposição - mas sem o Fundo Soberano - a MP de socorro aos bancos, que é chamada de "Proer do PT", talvez pudesse ser votada semana que vem. Sem acordo, só se o governo mobilizar sua base de apoio, que não é pequena mas está mais envolvida com o segundo turno das eleições municipais. Com a decisão de convocar o Conselho Superior, o PSDB sinaliza que pode deixar qualquer decisão para depois do segundo turno, marcado para o próximo dia 26. 


Fonte: Valor Econômico
10/10/2008