Planejamento está imune, dizem empresas
 


A escalada do dólar e o barateamento das commodities no cenário internacional, aparentemente, ainda não têm influência no planejamento das empresas para o fim deste ano e o começo do ano que vem. O DCI entrou em contato com cerca de 20 companhias na última sexta-feira, sendo que apenas três se manifestaram, sempre com a mesma resposta: o impacto das turbulências é nulo.

A Companhia Vale do Rio Doce informou, por meio de sua assessoria de imprensa, não ter qualquer motivo para se preocupar. Para justificar essa tranqüilidade, foi citada a captação de cerca de US$ 12,5 bilhões feita há alguns meses, por meio da sua oferta global de ações. À época, a mineradora pretendia levantar US$15 bilhões em recursos, mas os problemas do mercado refletiram em um deságio de seus papéis. Quanto ao impacto da queda de preço das commodities, a empresa lembrou que o preço do minério de ferro é ajustado anualmente, no momento de renovação dos contratos. Em 2008, esse dissídio ficou entre 65% e 71%, dependendo do cliente. As oscilações na cotação do níquel, por sua vez, têm impacto imediato nos negócios da empresa, mas com relevância menor do que a de seu principal produto. Em relação a outras perspectivas de 2009, inclusive sobre reajuste de contratos do minério de ferro, a companhia preferiu não se manifestar, informando que sua diretoria não está concedendo entrevistas pela proximidade de divulgação de resultados trimestrais, marcada para esta semana.

O gerente de Relações com Investidores da Celesc, Aldo Shumacher, ponderou, por sua vez, que o plano de investimentos para 2009 não pode ser alterado por já ter sido aprovado pelo Conselho de Administração da companhia. "Em nossas análises, o consumo de energia não vai aumentar, então nossa receita vai ser a mesma", afirmou o executivo. "Quanto à captação, não temos medo da crise, pois não temos dívidas em dólar e temos um bom relacionamento para conseguir crédito para financiamento, se necessário", finalizou.

Superintendente de Relações com Investidores da ALL Logística, Rodrigo Campos manteve a posição de seu colega. "Nossa companhia ficou em uma posição privilegiada perante à crise. Temos R$2,5 bilhões em caixa se precisarmos de recursos para investimentos, isso nos possibilita continuar crescendo como crescemos neste ano. A política da companhia não permite endividamento em dólar", concluiu. A empresa divulgou, na semana passada, a prévia dos resultados obtidos no terceiro trimestre deste ano. Segundo informações da corretora Ativa, a diretoria da ALL acredita que alguns produtores estão protelando o embarcamento de seus estoques na espera de condições melhores do câmbio - situação verificada atualmente e que, inclusive, é responsável pela compensação da perda financeira que ocorreria com a desvalorização atual das commodities. Dessa forma, envios que deveriam ocorrer no terceiro trimestre acabaram sendo adiados para o período compreendido entre outubro e dezembro. "Portanto, a companhia manteve sua expectativa de crescimento nos volumes entre 12% e 14% para este ano, o que implica que precisará atingir um crescimento de volume de 25% na comparação com o mesmo período do ano anterior no quarto trimestre de 2008", explicou.

A Usiminas, por sua vez, investirá US$14,1 bilhões até 2012 na ampliação da capacidade de produção de aço e mineração, na modernização e aumento da capacidade de laminação das usinas atuais, redução de custos e preservação ambiental - e não prevê qualquer modificação nesse seu cronograma. "A empresa sempre procura antecipar a captação de recursos para os seus investimentos. Desta forma, as captações feitas no início do ano, como eurobond, debêntures, pré-pagamento de exportação e linhas com o BNDES, garantem as necessidades para, pelo menos, até meados de 2010", disse a companhia por meio de nota.

VAREJO E ENERGIA
Segundo Luciana Leocádio, analista-chefe da Ativa, companhias voltadas ao comércio externo, como é o caso das Lojas Renner, não deixam de ser uma boa opção de investimento, visto que o ticket médio não costuma ser muito alto. Contudo, esse setor não está imune a um cenário de maior desaquecimento do consumo. "A prioridade de gastos com vestuário vem depois de habitação e alimentação", lembrou a analista, afirmando ainda que, em termos de alavancagem financeira, a empresa está "relativamente confortável", por ter seus recursos provenientes do próprio caixa. Por outro lado, dado o cenário recente de restrição ao crédito, as Lojas Renner tiveram dificuldade em obter um financiamento para a compra da Leader. Dessa forma, a companhia recorreu aos próprios vendedores para aumentar o prazo de pagamento e reduzir os juros. "No entanto, com a compra da Leader, a Renner adquire uma empresa ligada ao segmento de baixa renda que pode ser muito afetado em um cenário de desemprego maior e queda na renda", finalizou Luciana. As Lojas Renner foram procuradas para comentar o assunto, mas não se manifestaram.

Por fim, é importante citar que na semana passada, a Cemig - empresa do setor de energia elétrica com um dos melhores planos de pagamento de proventos - anunciou que estuda limitar o pagamento de dividendos a 50% do lucro, que é o mínimo previsto em seu estatuto. A redução seria justificada pela menor oferta de crédito para as empresas e pelos "pesados" planos de investimento da companhia. A diretoria foi procurada pelo DCI para comentar o caso, mas não retornou até o fechamento desta edição.


Fonte: DCI
13/10/2008