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“Pensar globalmente” é a dificuldade apontada pelo engenheiro e professor da Universidade de Esslingen (Alemanha), Ferdinand Panik, ao falar sobre o rumo administrativo das empresas globais diante de choques como a crise financeira que abala o mundo neste momento. Panik acredita que esse momento é resultado da globalização, fenômeno ainda a ser domado pelas empresas. Para o professor, o efeito da crise pode ser ilustrado como o “tsunami da indústria” e a solução está no trabalho conjunto das empresas.
O engenheiro fala ao G1 com base na experiência profissional ao trabalhar de 1972 a 2002 na DaimlerChrysler, período em que participou de diversos projetos, luigados a segurança veicular e uso de célula de combustível. Atualmente, além do trabalho na faculdade, atua junto a projetos automobilísticos, como o ônibus movido a célula de hidrogênio desenvolvido no Brasil.
G1 – O senhor desenvolve o assunto globalização na Universidade de Esslingen. Por que estudar esse tema é tão importante para o profissional que chega ao mercado hoje?
Ferdinand Panik – A globalização começa com a educação das pessoas. Aprender culturas diferentes, respeitar as pessoas, falar inglês é um fato. Mas precisamos aprender a respeitar as outras culturas e trabalha-las em conjunto. A idéia é fazer uma empresa global, mas na prática isso é muito difícil, porque as culturas básicas são muito diferentes. Nesse contexto, o profissional global, que tem essa visão da empresa, é essencial para a evolução dos negócios.
G1 – E como tais divergências afetam a indústria hoje, ao levar em conta a crise financeira atual?
Ferdinand Panik – A crise internacional é um grande risco que corremos ao fazer negócios globais e ninguém poderia gerenciar isso, porque ninguém previa o crescimento e a complexidade da globalização que criamos. A crise acontece como o tsunami da indústria. O impacto será muito forte nos próximos meses. Pedimos controle, e é essa parte que a crise nos ensina. Hoje, gerenciar potências globais exige um nível profissional muito alto. Antigamente, o conhecimento adquirido com a educação escolar e universitária faria esse trabalho. Hoje, aprendemos novas tecnologias, línguas, ou seja, novas formas de processo para gerenciar. A Educação precisa mudar.
G1 – Como lidar então com os problemas atuais se poucos desses “profissionais globais” estão no mercado?
Ferdinand Panik – Com ações em conjunto. Ninguém tem uma solução no momento, porque ninguém tem conhecimento completo das raízes do problema. Então, precisamos de contribuições inteligentes e construtivas de todos os lados. E a comunidade mundial precisa estimular essas pessoas que possuem conhecimento global. Ações rápidas precisam ser feitas para evitar que tudo despenque, isso no curto prazo. Depois, devemos aprender a gerenciar um sistema global, que precisamos definir juntos. Uma lição que aprendemos é que as ações globais podem causar problemas globais e não temos como controlar depois.
G1 – Baseado nesse conceito de profissional global, quem serão os líderes empresariais do futuro?
Ferdinand Panik – Os homens com a cultura de caçadores serão substituídos pelas mulheres. Porque elas aprenderam a gerenciar filhos, marido e trabalho ao mesmo tempo. É uma cultura flexível, comunicativa e moderadora.
G1 – Além da crise financeira, outro problema global é a questão do meio-ambiente. A indústria automobilística tem trabalhado com diversas alternativas, o senhor inclusive trabalha há muitos anos em pesquisas de célula de hidrogênio. Sobre o futuro da matriz energética, essa será uma questão política?
Ferdinand Panik – Vamos ter algo diversificado como já existe no Brasil, que hoje possui diesel, gasolina, etanol, gás natural e biodiesel. Esse já é o futuro. Vamos entrar no ciclo dos motores elétricos, que será o primeiro passo para chegar às células de combustível. Isso será a reinvenção do automóvel. Cada país definirá a matriz energética. O Brasil tem uma situação fantástica para produzir etanol. Para mim, o único problema é usar alimentos para fazer combustível. Isso será polêmico porque os preços dos alimentos sobem. Precisamos trabalhar em outras soluções, como o etanol de celulose, que deverá chegar em escala industrial nos próximos dez, vinte anos.
Fonte: G1 14/10/2008 |