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O mesmo setor, dois cenários completamente distintos. No início do ano, as empresas de construção não se intimidaram em fazer promessas ousadas. Agora, o segmento - que já vinha numa correção de rota - viveu um duro choque de realidade diante da crise financeira. Atropeladas pela drástica mudança de cenário, as empresas mudaram o discurso: a prudência e o conservadorismo substituem o crescimento desenfreado. Para 2008, o encolhimento das projeções de lançamento já está em 28% e para 2009, o ajuste será ainda maior: de 34%.
Com apetite reduzido, as oito empresas que reviram suas projeções de lançamentos previam colocar no mercado R$16 bilhões em novos empreendimentos somente este ano. Agora, reduziram a meta para R$11,6 bilhões. Para 2009, a expectativa das sete companhias que revisaram seus números passou de R$17,3 bilhões para R$11,4 bilhões.
Mais cautelosas, as empresas mudaram seu modo de agir. Na prática, a tradução de cautela muda para cada companhia, mas o objetivo final é sempre o mesmo: preservar o caixa e garantir uma boa receita com vendas. A maioria só lança empreendimento se o financiamento estiver garantido, só compram terrenos se considerarem uma oportunidade de ouro e caso o vendedor aceite permuta no pagamento, escolhem empreendimentos menores e, de preferência, em regiões menos concorridas.
A Agra, cujo contrato de venda para a Cyrela foi cancelado, foi taxativa: lança apenas imóveis com financiamento à obra garantido pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH). "Diante da escassez e do encarecimento do crédito, fizemos a revisão dos lançamentos para chegar ao nível do caixa que queríamos comprometer", disse Fábio Tsubouchi, gerente de RI da Agra.
A Even, que fez um aumento de capital de R$150 milhões, também não lança se o financiamento à obra não estiver aprovado, procura locais menos concorridos e aposta na estratégia de "esquentar" as vendas, assim como faz a Eztec. Essas empresas acentuam a chamada pré-venda - quando os corretores começam a contatar clientes cadastrados e apresentar o produto - com o objetivo de sentir o mercado antes que o lançamento seja feito. "É um bom termômetro para sentir a receptividade do produto", diz Emílio Fugazza, diretor financeiro da Eztec.
Projetos menores e mais convencionais ganham prioridade. Os megaempreendimentos - como os condomínios-clube que foram a sensação do mercado no ano passado, mas são mais demorados e difíceis de serem vendidos e aprovados pelos órgãos da prefeitura - perderam espaço. Novos conceitos de projetos, como os que misturam shopping, laje comercial e residencial, também devem ser adiados. "Agora não é hora de inventar nada", diz um executivo do setor.
Não há um nicho de atuação preferido pelas empresas nesse momento. Cada uma vai para onde sabe atuar melhor: a JHSF, por exemplo, vai dar prioridade à alta renda, enquanto a PDG Realty, que é sócia da Goldfarb, se concentra na baixa renda, aproveitando que o crédito ao consumidor não dá sinais de ser afetado.
Estratégias de marketing mais agressivas, como as típicas promoções usadas para desovar bens de consumo, migram para o setor imobiliário. Em um empreendimento na concorrida Barra da Tijuca, a CHL, prometeu um carro para os primeiros compradores. Resultado: terá que dar 530 Palios, da Fiat. A empresa que venderia inicialmente 400 unidades, abriu vendas de 600. "Acabou a fase em que o consumidor batia na nossa porta", afirma José Antônio Grabowsky, presidente da PDG Realty.
Mesmo com uma nova postura, novas correções de rumo devem ser anunciadas em breve. A Gafisa, que adquiriu a Tenda, já disse que vai anunciar uma nova projeção para a sua companhia de baixa renda e pelo menos mais duas estão sinalizando a mesma trajetória. No primeiro semestre, quando o período foi de bonança, juntas, as empresas que estão na bolsa e divulgam suas informações, lançaram R$18 bilhões e venderam R$14 bilhões. Seguindo a lógica dos 28% de quem já mudou seu patamar, os lançamentos do segundo semestre ficariam em R$12,5 bilhões. Quanto às vendas, há opiniões divergentes sobre os efeitos da crise financeira, mas a única empresa que divulgou prévia de resultados até agora, a Rodobens, vendeu 46% menos que no trimestre passado.
O aperto do crédito, que inicialmente bateu na porta das menores, já é sentido por todas as empresas. Até a Rossi, uma das grandes do setor, engrossou o coro das companhias que reajustaram a meta de lançamentos - 14% este ano e 25% em 2009 - como também recebeu uma injeção de capital de R$150 milhões dos próprios sócios. O crédito para capital de giro ficou praticamente inviável e o financiamento à construção, que custava cerca de 10,5% ao ano mais TR, está entre 11,5% e 12%, além da TR.
Fonte: Valor Econômico 15/10/2008 |