Bancos renegociam perdas de empresas
 


Para aliviar o impacto das perdas das empresas com as operações de alto risco no mercado futuro de câmbio, os bancos brasileiros e estrangeiros deram partida a um processo de renegociação desses débitos. Os bancos devem conceder novos empréstimos em reais e a prazos mais longos.

Muitas empresas no Brasil, calcula-se que mais de 200, fizeram apostas pesadas de altíssimo risco na manutenção do dólar baixo até o final deste ano. Essas apostas foram feitas em sofisticadas operações no mercado de derivativos aqui e fora do país.

Com a crise global, o dólar subiu abruptamente de R$1,60 para quase R$2,50, e as empresas amargaram elevados prejuízos. Até agora, só três declararam ter tido perdas grandes nessas operações: Sadia (R$760 milhões), Aracruz (R$1,95 bilhão) e Votorantim (R$2,2 bilhões). As perdas totais são estimadas em R$40 bilhões. São esses prejuízos que estão sendo renegociados agora.

O objetivo dos bancos, ao renegociar esses débitos, é o de evitar que as empresas entrem com ações na Justiça contestando essas operações.

Nesta semana, o banco Credibel, do grupo Splice, obteve da Justiça liminar para não pagar a variação cambial em contratos fechados com o Itaú BBA. A liminar acendeu a luz amarela nos bancos.

Os bancos pretendem que essa ação do banco Credibel na Justiça seja um caso isolado. Já se discute entre as empresas a idéia de criação de um comitê de credores para negociar de forma conjunta com os bancos.

As discussões entre os bancos e as empresas ainda estão no início, mas já há algumas idéias na mesa. Uma delas é a de converter essas operações em dólar em novos empréstimos em reais a serem pagos em prazos mais longos.

Os bancos brasileiros terão mais facilidade do que os estrangeiros em fechar essas operações. As subsidiárias dos bancos estrangeiros terão que recorrer a outras alternativas mais criativas para renegociar esses débitos.

Esse tipo de renegociação não é novo no Brasil. Em 2002, na crise da primeira eleição do presidente Lula, quando o dólar chegou a R$4, muitas empresas endividadas em dólar também viveram o mesmo problema, e os bancos refinanciaram esses débitos.

A situação das empresas que registraram perdas com essas operações preocupa bastante o governo pelo efeito sobre o câmbio. O real foi das moedas que mais se desvalorizaram em relação ao dólar recentemente.

Em meio à crise de confiança, muitas empresas brasileiras, para se desfazerem de suas posições nessas operações de derivativos, correram para adquirir dólar à vista, o que contribuiu para valorizar a moeda.


Fonte: Folha de S.Paulo
17/10/2008