Operação exótica foi demanda de empresas, dizem bancos
 


As instituições financeiras têm se esforçado em manter distância do noticiário envolvendo as operações de derivativos cambiais que provocaram estrago em várias empresas. Em reservado, porém, contestam as informações de que os contratos foram oferecidos por iniciativa dos bancos e, principalmente, a alegação das companhias de que não foram devidamente alertadas sobre os riscos que corriam. "A demanda por esse tipo de instrumento veio das próprias empresas exportadoras, preocupadas com a perda da competitividade com o dólar em queda", argumenta um executivo.

A afirmação contraria os comentários recorrentes no mercado, os quais apontam que várias empresas foram procuradas por bancos comerciais e de investimento com propostas de captação de recursos supostamente mais baratos e instrumentos que garantiriam uma receita extra em caso de queda do dólar em relação ao real. "A reclamação pelas perdas atuais tem partido justamente das empresas que tiveram lucro expressivo nos últimos anos", diz o profissional de um banco.

Ele se refere especificamente ao "target forward", derivativo de altíssimo risco que, além de fornecer uma proteção (hedge) para a empresa em um cenário de dólar em baixa, oferece a possibilidade de ganhos financeiros. Por outro lado, no caso de valorização da moeda norte-americana, as perdas acontecem em dobro. Isso porque, além de realizar uma operação de venda de dólar em uma data futura a um valor pré-estabelecido, como seria de praxe, no target forward a companhia vende também uma opção - que dá o direito ao comprador de adquirir dólares da empresa no futuro - e recebe em troca uma determinada quantia, chamada de prêmio.

Assim, se a cotação da moeda for menor do que a estabelecida no contrato, a empresa embolsa o equivalente ao prêmio da opção. Em caso contrário, como o que vem ocorrendo por conta do agravamento da crise financeira, ela é obrigada a vender dólares por um preço mais baixo que o de mercado duas vezes: pelo fato de estar vendida em dólar futuro e na opção. Quanto maior a diferença entre o valor do dólar estabelecido no contrato e o da data de exercício da opção, maior o prejuízo. E agora, com a expectativa de enfraquecimento da demanda externa em conseqüência da crise, as companhias podem ter dificuldade em compensar parte da perda financeira na operação, como ocorreria em condições normais de mercado.

De acordo com as fontes consultadas pela Gazeta Mercantil, das várias modalidades de contratos derivativos oferecidos às empresas, o target forward é o que representa o maior perigo. Estima-se que pelo menos 200 companhias tenham exposição a esse tipo de instrumento. Em apenas uma das instituições, havia aproximadamente 70 contratos em aberto. Segundo um executivo que acompanha os negócios e agora se dedica a resolver o imbróglio provocado pela disparada do dólar, as empresas não apenas sabiam dos riscos que corriam como assinaram um termo de ciência da operação. Ele também alega que a instituição da qual faz parte forneceu uma planilha com várias simulações de ganhos ou perdas que os derivativos poderiam trazer dependendo da cotação do dólar, inclusive em cenários de estresse, com a moeda cotada a R$3,00.

Por outro lado, a fonte defende as tesourarias das companhias da acusação de quererem simplesmente especular no mercado. "As operações só foram feitas porque havia uma necessidade de as empresas manterem a viabilidade de suas operações com a queda do dólar nos últimos anos."

ERROS E SPREAD
Independente da boa-fé ou não dos bancos, existe um consenso de que foi um erro oferecer derivativos atrelados à variação do dólar como uma opção de captação mais barata para quem não era exportador. Nenhum dos bancos admitiu, porém, ter realizado esse tipo de negócio com empresas que não tinham receitas em moeda estrangeira. Para evitar contestações judiciais - caminho adotado pelo Banco Credibel, que mantinha operações com o Itaú BBA - e manter os clientes, com quem possuem relacionamentos em outras áreas, as instituições procuram renegociar os contratos. As novas condições envolvem a conversão da dívida para reais a taxas de juros "compatíveis" e o alongamento do prazo de pagamento de acordo com o fluxo de caixa da companhia.

Desde que Sadia e Aracruz, e mais tarde o Grupo Votorantim anunciaram as perdas com derivativos, o mercado vem especulando sobre quem seriam as contrapartes no negócio. O Banco Safra, cuja família também mantém o controle da produtora de celulose, chegou a ser apontada no mercado como a instituição responsável pelas operações da Aracruz, o que foi negado tanto pela empresa como pelo banco.

Pela primeira vez em que se pronunciaram sobre o assunto, Unibanco e UBS Pactual desmentiram informações de que estariam envolvidos na operação da Aracruz, que provocou um prejuízo estimado em R$1,95 bilhão, com base na cotação do dólar em 30 de setembro. Em nota, o Unibanco negou ter realizado qualquer operação de derivativos com a produtora de celulose. O banco, porém, não informou se mantém contratos desse tipo com outras companhias.

Também em comunicado, o UBS Pactual afirmou que nunca realizou operações de target forward, mas não esclarece se possui ou oferece outros instrumentos derivativos. Procurados pela reportagem, o Credit Suisse informou que não comenta operações e o Merrill Lynch não se pronunciou até o fechamento desta edição. Também consultadas, Febraban e Anbid, entidades que representam as instituições, não se manifestaram sobre o assunto.

Apesar de serem intermediários no negócio, o ganho dos bancos não vinha da operação em si ou da oscilação da moeda, já que eles não carregam as posições. Assim que fechavam os contratos com as empresas, as instituições voltavam ao mercado e revendiam a opção comprada. O lucro, portanto, vinha da diferença entre o valor pago à empresa pelo prêmio da opção e o vendido posteriormente. Os bancos negam que os ganhos chegassem a 34% por operação, como chegou a ser informado. "Negócios como esse podem até ter sido oferecidos, mas dificilmente foram fechados", afirma o diretor de uma instituição. Ele diz que os ganhos por negócio eram em linha ou pouco acima de operações de financiamento convencionais.


Fonte: Gazeta Mercantil
22/10/2008