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Apesar de esforçar-se por manter o tom de otimismo e confiança quanto ao desempenho do Brasil, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avaliou ontem, ao falar na Câmara dos Deputados, que a "segunda fase" da crise vai ter impactos maiores no País, sobretudo por conta do "secamento das linhas de crédito para o comércio exterior", antevendo que as conseqüências serão de longo prazo. Na mesma sessão, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, reconheceu que a turbulência é "severa e séria".
Em certa medida, os dois integrantes da cúpula da equipe econômica do governo federal desceram ao menos um degrau quanto à postura impávida que vinham adotando no que se refere a minimizar os reflexos da crise no Brasil. A posição deles foi considerada uma estratégia para assegurar a aprovação da Medida Provisória nº 442, que dá mais poderes ao Banco Central para socorrer bancos em dificuldades e liberar crédito para exportação.
Ambos foram os principais convidados da audiência de ontem da comissão geral da Câmara dos Deputados organizada para tratar desse tema. Eles eram esperados na tarde de hoje na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para falar sobre o mesmo assunto, mas pediram o cancelamento do encontro e não marcaram nova data e local, o que irritou o presidente da Casa, Garibaldi Alves (PMDB-RN), que admite que pode convocá-los para depor, circunstância em que não podem recusar.
MEIRELLES Meirelles foi o primeiro a falar, por volta das 16 horas, quando passou a pontuar as vantagens comparativas do Brasil, com o auxílio de gráficos. Ele ressaltou os U$S203 bilhões de reservas internacionais que possui o Brasil, como "fator de estabilidade". Mesmo assim, o presidente do BC alertou do fato de que é preocupante a queda dos índices de confiança internacional, que baixou de 96% (2006) para 56% na atualidade.
Ele, no entanto, disse acreditar que os U$S600 bilhões, montante despendido por nove países para conter a crise, sejam uma medida que deve servir para tranqüilizar a economia. Depois de falar por pouco mais de 40 minutos, Meirelles pediu licença aos parlamentares para se deslocar ao BC, a fim de acompanhar o fechamento dos mercados, prometendo retornar à Casa, no início da noite.
"Espero que retorne", provocou o líder do PPS, Fernando Coruja (PPS-SC).
MANTEGA Depois da saída de Meirelles, Mantega reconheceu a gravidade da crise. "Eu não acredito que a crise esteja acabando, ou esteja em vias de acabar", afirmou. "Ainda vai nos dar muita dor de cabeça e muito trabalho."
Ele considera também que "a fase mais aguda da crise tenha acabado. Continuará havendo volatilidade, mas vejo uma acomodação."
Para ele, o Brasil, como outros países emergentes, tem a seu favor uma economia dinâmica, sobretudo por conta da possibilidade de crescimento do mercado interno, diferentemente da maior parte das nações ricas.
Outro mérito nacional, segundo o ministro, fica por conta da pauta diversificada de exportações. "Antes 25% da nossa pauta de exportações voltavam-se para os Estados Unidos da América e outros 25% para a comunidade européia; hoje esse índice baixou para 15% nos dois casos", comparou o ministro.
Da mesma maneira que Meirelles, Mantega deu grande ênfase à diminuição do financiamento das exportações como um desafio a ser enfrentado. "Nas últimas três semanas, o crédito internacional praticamente secou."
Contudo, mais uma vez consoante com o presidente do Banco Central, Mantega disse acreditar que as medidas tomadas pelos países ricos devem ser entendidas como muito positivas. "A fase aguda cessou, está assentada." Além do potencial do mercado interno, Mantega elencou as reservas de gás e petróleo e a regulação do sistema bancário, com destaque à política do compulsório, como instrumentos para debelar os efeitos da crise. "Para se ter a idéia, em outros países o compulsório vai de 0 a 10%, no Brasil, ele é de 53%."
PLENÁRIO Quando a palavra foi aberta ao plenário, já com o retorno do presidente do BC, a oposição passou a criticar o governo. "O Brasil desconhece a crise quando aumenta o custeio da máquina. Foram criados milhares de cargos para acomodar os apadrinhados", criticou o deputado Zenaldo Coutinho (PSDB-PA), líder da minoria.
Com postura semelhante, o deputado Paulo Bornhausen (DEM-SC) criticou Meirelles e Mantega. Na opinião dele, "uma mensagem de austeridade fiscal seria importante para a população e os investidores entenderem que disposição do governo para enfrentar a crise é para valer".
Mantega rebateu dizendo que o governo acompanha a crise desde o início e tem a leitura de que ela é de longo prazo, mas considerou exagero e até invenção a idéia de trazer ao Brasil as dificuldades enfrentadas pelos EUA.
Fonte: DCI 22/10/2008 |