Ação à prova de choque
 


Com as quedas vertiginosas do Índice Bovespa (Ibovespa), muitos investidores se sentem tentados a aplicar na bolsa agora que ela ficou mais barata. Apesar de a teoria rezar que comprar na baixa pode ser sinônimo de sucesso no mercado acionário, o problema é que não há qualquer garantia de que os papéis não irão cair ainda mais. Para fisgar os aplicadores interessados na Bovespa, mas que temem novos tombos, os bancos apostam cada vez mais nos fundos de capital protegido. O grande atrativo dessas carteiras é que, em caso de perdas, elas devolvem o que foi aplicado pelo investidor. Os números mostram que essas aplicações vêm caindo no gosto do investidor. Segundo dados do site Fortuna, os fundos de capital protegido somavam patrimônio de R$3,251 bilhões até o dia 15. Um crescimento e tanto para uma categoria que no início do ano reunia R$1,732 bilhão. 

Normalmente esses fundos são atrelados à variação da bolsa e funcionam da seguinte forma: se o Ibovespa subir, mas sem bater uma determinada pontuação definida na hora da aplicação, o investidor leva o ganho todo para casa. Se alcançar ou passar desse limite, porém, a aplicação passa a ter um retorno prefixado. Já se o índice cair, o aplicador leva o principal investido. Algumas carteiras dão até uma colher de chá para o investidor e, se a bolsa cair, ele também ganha, mas esse retorno estará limitado a um percentual da queda. Quando lançados, esses fundos ficam abertos para aplicações por um período determinado. Depois, não é mais possível investir e o dinheiro tem de ficar aplicado normalmente por um ano ou mais. 

Para quem quer colocar neste momento um pé na bolsa, mas sem o risco de perder o que investiu, o HSBC lançou o Smart 7. Voltado para os investidores de varejo de alta renda, o investimento inicial é de R$5 mil e o fundo tem prazo de 14 meses (vence em 17 de dezembro de 2009). A carteira funciona da seguinte forma: se o Ibovespa subir menos de 35%, o investidor leva o retorno do índice. Se bater ou superar esse percentual, o fundo vira um renda fixa, com ganho de, no mínimo, 17,5% proporcional ao período do investimento. Já no pior cenário, se a bolsa cair, o investidor tem o capital protegido, levando de volta o valor aplicado. A carteira ficará aberta para captação até o dia 30, mas poderá fechar caso atinja R$250 milhões. 

É justamente para momentos de forte incerteza que esse tipo de fundo é recomendado, diz Mario Felisberto, diretor de investimentos da HSBC Global Asset Management. "Muitos acham que a bolsa está barata, mas se sentem inseguros para entrar neste momento", diz. "E com esse fundo, em caso de melhora, o investidor captura o ganho da bolsa, mas se a situação não melhorar, ele protege o capital aplicado." Esta é a sétima versão do Smart e os quatro primeiros bateram a barreira de alta do índice e tornaram-se renda fixa. Os outros dois vencem no ano que vem e não bateram a barreira de alta. 

Outra instituição que tem neste momento uma carteira desse tipo em fase de captação é o Banco Real. O fundo Real Capital Protegido Van Gogh 2, um multimercado em que o investidor pode ganhar tanto na alta quanto na baixa da bolsa. A barreira de alta é de 40% e a de baixa de -20%. Se durante o período de vigência do fundo o Ibovespa superar 40%, o aplicador leva uma taxa prefixada, assim como se cair mais de 20%. Se a bolsa subir, mas não atingir os 40%, o cliente leva a valorização total do Ibovespa. Se cair menos de 20%, o investidor leva o mesmo percentual, só que positivo - se cair 19%, ele terá um ganho de 19%. 

Voltada para o varejo de alta renda, a carteira ficará aberta para captação de recursos até 14 de novembro, mas será fechada se atingir o patrimônio de R$250 milhões. A aplicação inicial é de R$10 mil e a taxa de administração é de 2,5% ao ano. Os recursos serão resgatados em 17 de maio de 2010. "Hoje, para quem não quer só ficar no CDB, os fundos de capital protegido têm aparecido como forma de diversificação", afirma Eduardo Jurcevic, superintendente de Investimentos do Banco Real. "Muitos conhecem outros investidores que ganharam dinheiro na bolsa e, apesar da baixa, ouvem que a perspectiva é de alta e nesse fundo ele fica mais tranqüilo." 

Bastante ativo nesse tipo de fundo, o BNP Paribas conta com 17 carteiras, que também oferecem retornos caso a bolsa caia. Segundo Eduardo Loverro, da BNP Paribas Asset Management no Brasil, apesar de esse tipo de aplicação ter bastante apelo neste momento, o investidor tem preferido buscar o porto seguro da renda fixa diante da forte volatilidade do mercado. "Quando o cenário começar a ficar um pouco mais claro, aí sim o cliente vai voltar a considerar a aplicação em bolsa", avalia. 

Os fundos de capital garantido do banco têm prazo médio de um ano e meio, mas se o cliente quiser resgatar os recursos antes, pode, mas ele sairá pelo valor da cota. Isso quer dizer que, neste caso, poderá haver perdas. "A estrutura só é válida para os cotistas que ficam até o vencimento", alerta Loverro. 

No Itaú, os clientes de varejo de alta renda, do segmento Personnalité do banco, têm à disposição uma aplicação chamada Capital Garantido Bolsa Mais. O funcionamento é o mesmo - se a bolsa subir, o cliente ganha, mas se superar um determinado percentual, vira renda fixa, com retorno na faixa de 150% do CDI. Já se o índice cair, o cliente leva uma rentabilidade na casa dos 50% do CDI do período. A diferença é que este não é um fundo de investimento, mas uma operação de nota estruturada feita junto à tesouraria do banco. A aplicação mínima é de 15 mil, o prazo médio é de 12 meses, mas pode variar. 

A operação é feita de forma exclusiva para cada investidor e os parâmetros de retorno variam de acordo com as condições de mercado, ressalta Moacyr Castanho, diretor de investimentos do Itaú. "O produto dá mais flexibilidade ao cliente, que não precisa, como num fundo, esperar a carteira abrir para aplicar", diz. "Muitos lêem que as quedas do Ibovespa deixaram a bolsa atrativa e, então, querem investir, mas têm medo porque pode cair ainda mais e optam por uma aplicação que devolva pelo menos o que ele investiu." 


Fonte: Valor Econômico
24/10/2008