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Nas últimas semanas, os especialistas em aberturas de capital têm sido procurados por companhias interessadas em tomar o caminho oposto: sair da bolsa. As empresas têm ouvido de bancos, escritórios de advocacia e consultorias que, apesar de ser uma opção, a medida não é simples e em muitos casos tampouco a mais indicada.
Muitas das companhias que abriram capital recentemente sentem-se desconfortáveis com a desvalorização de seus papéis na bolsa, que em muitos casos supera os 80% no ano, por conta da crise de confiança que atinge o sistema financeiro global e a conseqüente distorção dos preços dos ativos.
Como empresas que chegaram à bolsa recentemente já conviviam com um problema de reduzida liquidez, agora elas não vêem perspectivas de que os papéis possam retomar os preços de lançamento nem quando houver uma reacomodação do mercado.
O mercado de crédito fechou e, portanto, elas não podem contar com os principais benefícios de uma companhia de capital aberto, maior visibilidade e acesso a recursos mais baratos. Os controladores vêem os preços de seus negócios derreter e acreditam que, a esses valores, compensaria fazer uma oferta pública para os demais acionistas e retomar a empresa.
"Uma das vantagens da abertura é aumentar o valor da empresa sem necessariamente elevar seu capital", diz Ana Carolina de Salles Freire, sócia da TozziniFreire Advogados. "O valor cresce, a empresa pode passar a ter um rating, ser reconhecida pelas boas práticas de governança e terá acesso a crédito em condições melhores", explica Ana, destacando que, por essa razão também parece pouco aceitável que muitas delas hoje estejam cotadas abaixo do valor patrimonial.
Em princípio, diz Ricardo Almeida, especialista em gestão empresarial da FIA (Fundação Instituto de Administração), o leigo pode pensar que o controlador estaria agindo com oportunismo. Vendeu as ações a um preço muito mais alto - talvez até sobrevalorizado, no boom das ofertas de 2007 - e, agora, que eles se depreciaram muito, quer recomprá-las. "Mas essa afirmação só poderia ser feita se fosse possível dizer que, lá atrás, quando fez a oferta, o majoritário contava com o cenário atual de crise financeira aguda que derrubaria as ações", diz Almeida. "Mas me parece que se esperava exatamente o contrário, a continuidade do cenário de bonança."
Ainda assim, a discussão sobre preços é a grande questão, segundo o especialista da FIA, na análise de possíveis deslistagens. Para fechar o capital, pelas regras do Novo Mercado - segmento da Bovespa com regras diferenciadas de governança - o controlador precisa fazer uma oferta para os demais acionistas baseado no valor econômico da empresa e não simplesmente a cotação de mercado. Atualmente, lembra Almeida, os preços estão muito baixos porque é grande o pessimismo em relação ao futuro. Não se acredita mais nos fundamentos, o que fica refletido em premissas tímidas tanto para os negócios das empresas quanto para o ambiente econômico. Se esse é o cenário, é razoável pensar também que o preço da empresa obtido via valor econômico, pelo método de fluxo de caixa descontado ou por meio de múltiplos, será baixo, talvez similar ao que está na bolsa.
Mas, lembra Almeida, se a justificativa para a recompra dada pelo controlador é a irracionalidade do preço dado pela bolsa às ações, ele, no momento de fechar o capital, também, em tese, não poderia fazê-lo a níveis tão depreciados.
"Obviamente, se for usar as perspectivas que lhe parecem racionais para a avaliação de sua empresa, a oferta de fechamento sairia muito mais cara e provavelmente seria inviabilizada", diz. "Se levar adiante a operação a um valor baixo, o controlador referendaria o mercado e, se quiser se envolver, por exemplo, em um processo de fusões e aquisições, será também por esse preço que seu negócio será avaliado."
Muitas empresas alegam que não estão contando com os bônus de companhia aberta e ainda encaram os custos de se manter nessa estrutura, que consideram elevados. Mas essa justificativa poderia ter algum sentido para empresas que conquistaram o registro mas não fizeram oferta, pois a janela de mercado se fechou. Duas das que estão nessa condição, Banco Bonsucesso e Infinity Bio-Energy, já solicitaram à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) o cancelamento dos registros.
João Batista Fraga, diretor de relações com empresas da BM&FBovespa, avalia que a opção pelo fechamento de capital é uma possibilidade, é razoável que o controlador cogite essa medida, mas destaca apenas que várias das exigências de empresas abertas servem, de modo geral para todas as empresas, como possuir auditoria, relatórios financeiro, contabilidade. A empresa, fechada, se livraria dos custos de publicação de balanços e comunicados, por exemplo.
Aberturas e fechamentos de capital são movimentos comuns de mercado e a CVM contabiliza números expressivos nos últimos anos porque embutem qualquer empresa aberta - que tinha a intenção ou lançou qualquer tipo de valor mobiliário.
Tomar essa decisão não significa necessariamente que no futuro as portas estarão fechadas para novas captações.
Ana, da Tozzini, avalia que se a empresa tomar a decisão em um momento difícil como o atual poderá não sofrer se resolver voltar. "Quando ela se reapresentar aos investidores, o que estará na cabeça de todos será a crise extrema internacional. Algumas podem estar até enfrentando problemas internos, de seus negócios ou setores, mas a crise irá sobressair a todos eles e poderá servir como uma justificativa plausível", afirma.
Ricardo Tadeu Martins, gerente de pesquisa da Planner Corretora, avalia ainda que o mercado costuma penalizar essa atitude sendo mais exigente e seletivo em uma eventual reabertura. Embora reconheça que cada caso é um caso e há exceções. Recentemente, a Cremer, que fechou o capital em abril de 2004, voltou à bolsa exatos três anos depois, com tranqüilidade.
Paulo Rocha, sócio do Demarest & Almeida, afirma que muitas empresas estão considerando o fechamento de capital, mas grande parte delas têm as chamadas pílulas de veneno que as impedem - por exemplo algum mecanismo que faz com que a oferta tenha de ser feita com um prêmio muito alto, por exemplo. Conforme apurou o Valor, algumas das novatas, em particular as que vieram a mercado de 2004 a 2006, assinaram com os bancos contratos em que se comprometeram a ficar na bolsa por, pelo menos, cinco anos. Na visão de Rocha, a opção por fechar capital pode ser vista como um um passo para trás.
Almeida, da FIA, diz que um ponto delicado para essa operação, no caso das novatas, é o caixa dessas companhias. Se lançaram ações recentemente, é preciso verificar se ainda não utilizaram os recursos captados. "Se ainda possuem recursos da oferta, seria aconselhável que os utilizassem antes, por exemplo, em um programa de recompra de ações", diz. Em tese, esse plano poderia elevar um pouco as cotações. "Se for feito o fechamento de capital, no nível de preço atual, aquele acionista que manteve os papéis por acreditar na empresa acabará penalizado", afirma Almeida.
Fonte: Valor Econômico 29/10/2008 |