Saídas criativas
 


Durante quatro anos o empresário Marcelo Myazawa, proprietário da Legas Metal, esforçou-se para vender mobiliário e acessórios para lojas em países sul-americanos. Nos melhores anos, as exportações de araras e prateleiras para clientes no Uruguai, Argentina, Paraguai e Suriname responderam por quase 10% de seu faturamento. Mas, há pouco mais de um ano, Myazawa desistiu das vendas externas. "A cada valorização do real, a operação tornava-se menos rentável. No fim, exportava, mas não lucrava.

Segundo o empresário, todo investimento em ganho de produtividade realizado em sua empresa perdia-se diante da valorização da moeda brasileira. Ele também não podia reajustar seus preços, uma vez que, no exterior, competia com concorrentes chineses que ofertam produtos com qualidade um pouco inferior, mas três vezes mais baratos. 

Perguntado se a recente desvalorização do real poderia estimulá-lo a retornar ao mercado externo, o empresário foi taxativo: "Não". Myazawa avalia que os investimentos em prospecção de mercado e na estrutura de exportação são altos. "O esforço não compensa diante de um mercado consumidor que, tudo indica, passará por uma fase de desaquecimento." 

Myazawa não é um caso isolado. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) apontam que duas mil empresas deixaram de exportar desde 2005, a maioria micro, pequenas e médias. "Essa redução da base exportadora deve-se majoritariamente à valorização do real", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB). Segundo Castro, as pequenas empresas são menos competitivas, por não terem escala e pela maior dificuldade de acesso à tecnologia e ao crédito. Para dar competitividade às pequenas empresas, a maioria dos países evita a valorização excessiva de suas moedas. "No Brasil, ocorre o contrário, o câmbio, em vez de ajudar, atrapalha", avalia o executivo. O resultado é uma forte concentração da base exportadora. "Apenas 1.300 empresas foram responsáveis por 90% das exportações brasileiras em 2007", informa. 

A exemplo de Myazawa, Castro acredita que a conjuntura internacional não é propícia para investimentos em prospecção de mercados no exterior. Portanto, em sua opinião, a recente desvalorização do real poderá, quando muito, ajudar as pequenas empresas que já exportam. Como é o caso da fábrica de botões e acessórios para calçados Irmãos Perfeito. 

Há três anos, o empresário Walter Perfeito associou-se a quatro outros pequenos empresários do setor de componentes para calçados para formar o consórcio Smart. Juntos eles contrataram um representante comercial para oferecer seus produtos em países latinos e rateiam despesas de participação em feiras internacionais. A iniciativa conta com o apoio da Associação Brasileira de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal) e da agência de promoção de exportações Apex Brasil. 

Os resultados, porém, são tímidos. Em 2007, as exportações da Irmãos Perfeito para Argentina e México somaram US$20 mil e, até outubro de 2008, US$25 mil. "Com o real forte, não conseguíamos concorrer com fornecedores chineses, que ofereciam seus produtos com preços 40% inferiores", diz o empresário. Agora, Perfeito está esperançoso. Ele acredita que, após a forte desvalorização da moeda brasileira, suas vendas externas finalmente podem deslanchar. "Ainda não fechamos novas exportações, mas as consultas já estão se intensificando", diz o empresário. 

Perfeito, porém, relata uma preocupação. O custo de seu principal insumo, o poliéster, que está atrelado ao dólar, já aumentou quase 15% nos últimos dois meses. "Só quando a conjuntura econômica se estabilizar teremos idéia se realmente ganhamos competitividade, ou não", diz o empresário. 

Para o economista Renato da Fonseca, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o câmbio, de fato, foi o principal entrave às exportações das pequenas empresas nos últimos anos, mas não o único. Segundo pesquisa da CNI feita em dezembro de 2007, os micro e pequenos empresários exportadores apontam uma série de outros fatores que limitam sua atuação no exterior. São eles, pela ordem, os altos custos portuários e aeroportuários, a burocracia alfandegária, o custo do frete internacional e do transporte interno, a carga tributária e a dificuldade de acesso a financiamentos para exportação. "Se o governo quiser ampliar a base exportadora, terá que agir de forma efetiva sobre cada gargalo que limita a atuação dos pequenos empresários", diz o economista. 

Para José Augusto de Castro, com medidas simples o governo poderia facilitar sensivelmente o ambiente de negócios para o pequeno exportador. Um exemplo, atacar a falta de crédito para a exportação com a extensão do uso do Fundo de Aval para garantir Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC). 

Luiz Carlos Barboza, diretor técnico do Sebrae, reconhece que hoje não há um tratamento diferenciado para as micro e pequenas empresas exportadoras. Barboza, porém, relata que o Sebrae, em parceria com vários órgãos do poder executivo, como os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, o Banco Central e o Banco do Brasil, estabeleceram um comitê informal para analisar e solucionar cada gargalo que afeta o pequeno exportador. A iniciativa faz parte de um plano de ação anunciado pelo Sebrae em setembro cujo objetivo é agregar 1.200 micro e pequenas empresas à base exportadora até 2010. Para isso, informa Barboza, o Sebrae está selecionando quatro mil empresas com potencial exportador. O grupo será formado por clientes do Sebrae e também serão convidadas pequenas empresas que atuam em setores que exigem altos padrões de qualidade, como o de petróleo e gás. 

As empresas selecionadas passarão por uma avaliação e será estabelecido um trabalho intensivo de capacitação exportadora nos próximos dois anos, por meio de consultorias desenvolvidas para atender as necessidades específicas de cada empresa. O Sebrae investirá R$12 milhões no projeto. No final do processo, informa Barboza, as empresas serão encaminhadas ao programa de promoção de exportação da Apex Brasil. 

A instituição, informa Rogério Bellini, coordenador da área de projetos da Apex, conta em 2008 com um orçamento de R$300 milhões. A metade desses recursos está sendo investida em 62 projetos setoriais de exportações, desenvolvidos em parceria com associações empresariais. A outra metade dos recursos, diz Bellini, está sendo investida na divulgação da marca Brasil no exterior e na manutenção de infra-estrutura de apoio logístico ao exportador brasileiro. Atualmente a instituição mantém galpões alfandegários em Miami, Varsóvia e Dubai. Até o final do ano serão instalados mais dois, em Cuba e na China. Ao todo, a Apex apóia 4.600 empresas. Juntas, elas exportaram US$8,8 bilhões no primeiro semestre de 2008. Bellini acredita que a retração do comércio mundial deverá afetar o desempenho destas empresas nos próximos meses. "Nossa estratégia é preparar os empresários para aproveitar as oportunidades que virão assim que o mercado reaquecer", diz o executivo. 


Fonte: Valor Econômico
30/10/2008