Não ao risco dos derivativos
 


A oferta dos contratos com derivativos superalavancados foi feita em larga escala pelos bancos no mercado. Embora muitas companhias tenham caído em tentação, muitas outras decidiram ficar de fora desse risco. Quem não aceitou as propostas, em geral, foi porque sabia que as perdas poderiam ser ilimitadas, caso a tendência do câmbio se invertesse - no lugar de queda, houvesse alta do dólar. 

Mesmo acreditando que uma explosão do dólar - como a que ocorreu - era improvável, muitos executivos disseram não a chances de ganho apostando na valorização do real ou ao acesso a crédito com custo abaixo da taxa básica de juros. Contratos com exposição ao risco cambial foram oferecidos até mesmo a companhias sem receita em dólar. 

"Ofereceram de tudo", contou Oscar Becker, diretor de finanças e de relações com o mercado da Iochpe-Maxion. "Calculamos e achamos extremamente arriscado. Nossa missão principal é cuidar dos negócios da empresa." 

Na Bematech, as propostas também chegaram. Luciano Sfoggia, vice-presidente financeiro e diretor de relações com investidores, também negou a oportunidade de lucrar com aplicações que prometiam taxas bem mais altas que o CDI. "Não somos exportadores. Nossa realidade não requeria esses produtos e, portanto, não era um instrumento adequado para a empresa." 

Alessandro Veronezi, presidente do conselheiro e relações com investidores da General Shopping, julgou que a oferta dos bancos não condizia com seu negócio. "Se a gente quiser operar com câmbio, teremos que montar uma mesa de tesouraria aqui e esse não é nosso objetivo." 

Outra companhia, do setor de fertilizantes, recebeu a oferta de crédito barato, embutindo as opções de dólar. Depois de avaliar a proposta com calma, o executivo ligou para o banco questionando quanto custaria a proteção cambial para o contrato - hedge - já que não tinha receita de exportação. Então, percebeu que incluindo esse custo o crédito perdia completamente a competitividade e não fazia sentido, comparado dos modelos tradicionais. Só seria vantajoso se o risco ficasse aberto. 

Para o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), William Eid Júnior, o episódio dos derivativos trará mudanças na forma com as empresas avaliam risco. "Não se pode ignorar as menores probabilidades, pois elas podem quebrar uma companhia." 

Os modelos de risco da Sadia apontavam com 95% de confiança que as perdas máximas para a posição líquida vendida em dólar de US$2,9 bilhões seriam de R$241 milhões, segundo as notas explicativas de junho. 


Fonte: Valor Econômico
31/10/2008