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O câmbio volátil motivado pela crise internacional tem deixado diversos setores da economia de "cabelo em pé". Enquanto os exportadores torcem para que o dólar se estabilize em um patamar mais elevado, os importadores já sentem a dificuldade na elaboração de preços e percebem uma redução drástica da margem de lucro. Com base nesse cenário, os representantes do setor já prevêem um 2009 difícil, quando as importações tenderão a cair significativamente.
Após acompanhar um crescimento no volume de importações na ordem de 25% nos últimos três anos, o vice-presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médico-Hospitalares (Abimed), Abrão Melnik, afirma que todos os importadores sentirão saudades do momento em que o câmbio estimulava o setor. "Com a volatilidade do dólar estamos registrando uma queda de 10% a 15% na margem de lucro. Antes nós trabalhávamos os preços com um cambio de R$1,80 e como ele estava abaixo disso, tínhamos um resultado cambial favorável no lucro. Com essa virada, todo o resultado positivo foi embora", lamenta.
De acordo com Melnik, o volume de importações do setor deve fechar o ano em R$2,5 bilhões, ainda positivo. Já para 2009, o representante ainda acredita em crescimento, porém, bem mais moderado do que nos últimos anos, cravando algo entorno de 10% de aumento. "A situação ainda é de não claridade", explica.
O vice-presidente informa que os contratos de importação no segmento geralmente contemplam um ciclo de 60 dias. Portanto, hoje, ainda não foi diagnosticada uma desaceleração das vendas. "Acredito que se o dólar se acomodar em R$2 as coisas podem se solidificar sem grandes turbulências. Já em níveis de R$2,20 e R$2,40 passa impactar muito forte", analisa. Ainda nessa linha de raciocínio, Melnik estima que a desaceleração econômica, se for controlada, pode ter um efeito minimizado no setor. "Não temos muito idéia de que a diminuição da atividade econômica vai impactar as importações. Acredito que se o PIB crescer uns 2% não deve ter grandes reduções. Mas, no primeiro semestre de 2009, teremos todos os detalhes da crise", conclui .
Quem afirma que está sentindo na pele a influência do abalo internacional nas importações é Daniel Dias de Carvalho, diretor da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei). Segundo ele, já é perceptível uma redução da demanda pelos itens de maior valor agregado. "Com certeza estava uma procura muito forte, com várias encomendas. Agora, com essa mudança repentina, estamos tentando assimilar o momento, pois nosso problema não é o dólar, mas a instabilidade."
O interlocutor alega que as pessoas acabam ficando receosas com o cenário de volatilidade, fato que afeta o planejamento das indústrias. "A falta de crédito é o item que mais afeta a importação desses itens, pois eles são caros e precisam de financiamento. O câmbio deixou os produtos 20% mais caros", comenta.
Conforme Carvalho, não é percebido no mercado cancelamentos de pedidos já feitos, mas certos planejamentos foram deixados em "compasso de espera". Apesar de não ter o controle dos valores, Carvalho disse que o crescimento das importações do setor chegava a 20% ao ano, resultado que deve ser alcançado novamente em 2008. "Dá para esperar o crescimento independente do cenário. Porém, em 2009 o volume deve ser de 15% a 20% menor", encerra. Segundo a Associação Brasileira da Industria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), em 2007 as importações de Bens de Capital somaram US$15,3 bilhões.
Para Gustavo Dedivitis, presidente da Associação Brasileira de Importadores de Produtos Populares (Abipp), neste ano ainda não serão sentidos os efeitos da crise, porque as importações foram fechadas no início do ano com o dólar na casa dos R$1,60 e pagos aos fabricantes chineses com esse patamar de cambio. Por isso, o representante disse que para o Natal não haverá aumento de preços aos consumidores. "Estamos numa praia vendo uma onda chegar. Não sei se vamos aproveitar para surfar e nadar de braçada ou se é um tsunami que vai nos arrastar para longe da praia", ilustra. Segundo ele, haverá uma redução "tremenda" das importações do setor. "Temos alguns importadores que estão na China preocupadíssimos, porque o país ainda não absorveu a crise e os preços não baixaram", explica.
O setor importou em 2007 aproximadamente R$4 bilhões, registrando um crescimento de 10%. Já em 2008, o presidente acredita que chega a 4%. Conforme Dedivitis, tanto o câmbio elevado como a redução da demanda mundial afetam seu setor.
Segundo o interlocutor, o dólar num patamar entre R$1,70 ou R$1,80 seria ideal para que o setor não tenha perdas no próximo ano. Do contrário, os ganhos dos importadores serão afetados. "Os nossos produtos são muito baratos, e a margem de lucro é muito pequena. Qualquer mudança nos afeta", encerra.
Fonte: DCI 06/11/2008 |