Mercado futuro de dólar cai 20% em outubro
 


A já conhecida fuga de investidores estrangeiros, a escassez de dólares e, inclusive, as perdas contabilizadas por empresas brasileiras com derivativos de câmbio fizeram com que o número de contratos futuros de dólar caísse em 20% na passagem de setembro para outubro. Conforme levantamento divulgado ontem pela BM&F Bovespa, foram 9,9 milhões no oitavo mês do ano. Já mês passado, a proporção foi de 8,08 milhões. E a tendência, segundo analistas, é de que essa retração continue nos próximos meses, principalmente em novembro, cujos movimentos verificados nos primeiros dias já apontam para essa percepção.

A retração demonstra um ritmo atípico. Para dar uma idéia, na passagem de agosto para setembro, o total de negócios desse produto cresceu mais de 30%. Entre julho e agosto, o avanço também havia sido expressivo: 17%. "A crise se acentuou e continua no epicentro dos negócios. Os estrangeiros diminuem suas posições em mercados emergentes , como o Brasil", avaliou o gestor de renda fixa da Leme Investimentos, Paulo Petrasse. Além disso, em setembro, Sadia e Aracruz foram as primeiras a anunciar ao mercado que a forte valorização do dólar frente ao real resultou em perdas de operações de hedge cambial que estavam alavancadas. Nesta semana, a produtora de papel e celulose divulgou fato relevante que informa do encerramento de 97% de suas posições. A medida causou uma perda superior a R$ 4 bilhões. "As empresas brasileiras que fazem operação de hedge acabaram saindo de suas posições depois das perdas. Parece que, agora, algumas estão com problemas em bancos estrangeiros", contou.

Essa tentativa de conseguir dólares no mercado internacional seria uma alternativa à falta de moeda por aqui. "É uma saída, porque muitos bancos têm problema de liquidez, o que limita a operação", explicou o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto. Apenas a título comparativo, dados da BM&F Bovespa mostram que o fluxo de recursos dos investidores estrangeiros para o mercado de ações brasileiro, até outubro de 2008, está negativo em R$ 3,26 bilhões. No mês, o balanço da negociação desses aplicadores está deficitário em R$ 4,7 bilhões.

Vale citar ainda que, em outubro, os investidores financeiros estiveram à frente da negociação nos mercados de derivativos, respondendo por 52,45% da movimentação do mês, ante 49,39% no mês de setembro. Os estrangeiros apresentaram a segunda maior participação: 22, 43%, fatia superior à de setembro, quando foram verificados 22,12%. Institucionais com 16,20%, ante 17,67% do mês anterior. Pessoas físicas passaram de 7,03% para 5,40%, no mesmo intervalo de tempo. Investidores não financeiros responderam por 3,53% mês passado, contra 3,78% verificados em setembro.

À VISTA X FUTURO
Conforme o economista-chefe da corretora Gradual, Pedro Paulo Silveira, o principal motivador da escassez de contratos futuros de dólar é a fuga dos investidores estrangeiros, situação que seca a oferta da moeda no mercado à vista e, conseqüentemente, no futuro. "Houve uma redução substancial do volume operado como um todo por conta da crise de crédito. O mercado futuro é muito ligado à atividade geral de câmbio dos bancos, já que é um instrumento utilizado para conseguir garantir os contratos aos clientes", explicou o especialista.

O balanço de outubro comprova essa afirmação: o dólar pronto negociado no mercado de derivativos ficou praticamente na mesma proporção entre setembro e outubro, com o total de negócios passando de 4.940 para 4.998. O volume registrado caiu cerca de 15%, passando de US$ 14,1 bilhões para US$ 12,5 bilhões. Já o mercado de ouro na proporção de 250 gramas movimentou 1.947 contratos, com alta de 73,53% sobre o mês de setembro, quando foram totalizados 1.122 mil negócios. O volume financeiro praticamente dobrou, passando de R$ 14,41 milhões para R$ 27,27 milhões no intervalo de um mês. Historicamente, quando há forte volatilidade no dólar, os investidores recorrem ao ouro para formar suas posições.

JUROS FUTUROS
Depois de o número de negócios dos contratos futuros de Depósitos Interbancários (DI) subir cerca de 40% entre agosto e setembro, avançou timidamente na comparação mensal seguinte, na proporção de 4,3%, atingindo 13,77 milhões de contratos. Os números, tímidos, são também resultado do desaquecimento das transações, por conta das turbulências financeiras. Novembro deve ser um mês ainda pior para esse tipo de produto, previu Petrasse, da Leme Investimentos.

"Em outubro, o número só não foi pior por causa da reunião do Comitê de Política Monetária, que normalmente aquece esse mercado. Na primeira semana de novembro, os DIs são os mais prejudicados pela falta de liquidez", continuou. "Isso acontece porque o mercado de títulos públicos também foi reduzido. Deve haver manutenção desse cenário de baixo crescimento e decréscimo dos negócios nos próximos meses", arriscou Silveira, da Gradual.


Fonte: DCI
07/11/2008