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Em meio aos solavancos no mercado acionário impostos pela crise global - que têm derrubado, indiscriminadamente, a cotação de papéis "blue chips", segunda linha e de empresas de baixa capitalização ("small caps") - há um pequeno rol de companhias que surpreendentemente resiste entre aquelas que abriram o capital de 2004 para cá. Na conta do ano mesmo, só Natura, Le Lis Blanc e Nossa Caixa é que têm valorização entre as mais de 100 empresas que chegaram ao pregão nos últimos anos. Outras, como Odontoprev, MMX Mineração, CPFL Energia, Totvs ou GVT, ainda exibem um valor de mercado acima do patrimonial e mostram desempenho, desde a estréia, bem acima do que o combalido Ibovespa.
Com a maciça saída de capital externo da Bovespa - só neste ano, as vendas de ações superam as compras em R$22,6 bilhões até o dia 4 -, as novatas, que nos tempos da bonança chegaram a atrair mais de 75% de estrangeiros para suas ofertas de ações, sofreram um golpe duro. Há papéis que acumulam perdas de mais de 90% só em 2008, caso de Abyara, InPar, Tenda, Laep e Agrenco. Mas o que explica o comportamento das ações que, aparentemente, sobrevivem à crise? Há valor nesses papéis ou as vendas acabaram ficando limitadas pela baixa liquidez dos ativos?
Com quase 60% do capital nas mãos de fundos de longo prazo, Le Lis Blanc é um exemplo típico de ação com giro estreito e que, por isso mesmo, acabou sendo preservada, segundo os analistas. A grife de moda chegou ao mercado em abril, numa oferta pequena, de pouco mais de R$300 milhões, concluída já no meio do qüiproquó financeiro provocado pelo "subprime" americano. Durante o processo, o preço das ações foi reduzido em 40% do inicialmente proposto, a venda secundária (de papéis dos sócios) cancelada e os próprios controladores adquiriram participações no âmbito daquele aumento de capital.
Em outros casos de novatas resistentes, os analistas sugerem que o investidor tem bancado os papéis em carteira porque considera que são apostas de valor, no melhor atributo da teoria fundamentalista de "value investing" - como investimentos para o longo prazo, leia-se uma década. Em comum, algumas dessas empresas têm o fato de serem líderes nos segmentos em que atuam, em mercados ainda fragmentados, e que têm cumprido à risca o que prometeram, diz Rodrigo Pasin, sócio da Value Consultoria.
No setor de tecnologia, a Totvs é o exemplo de líder consolidadora. Na semana passada, a companhia divulgou o primeiro balanço pró-forma incluindo as operações da Datasul, adquirida em agosto. O analista Valder Nogueira, da Itaú Corretora, considerou o desempenho combinado, tanto operacional quanto financeiro, forte, e reiterou a indicação de compra para as ações. O preço alvo para o fim de 2009 está estimado em R$72,30, em comparação aos R$40 atuais, diante da percepção de que outros resultados favoráveis virão e por confiar na capacidade da empresa de rapidamente integrar os ativos adquiridos.
Considerado defensivo nos mercados desenvolvidos, o setor de saúde, ainda novo no Brasil, foi, de certa forma, preservado na bolsa, pelos menos nos casos de Amil e, principalmente, Odontoprev. "Embora o investidor local não tenha essa percepção, no mundo todo o setor tem essa característica, de se sustentar nos momentos de crise, porque as doenças continuam, não há como escapar, é o último item que as pessoas deixam de pagar", argumenta o chefe da área de Renda Variável da Fundação Cesp, Paulo de Sá Pereira.
O nicho de odontologia em grupo cresce a taxas astronômicas no Brasil e a previsão é de que o mercado dobre de tamanho em quatro anos, da casa dos 12 milhões de segurados atuais para algo entre 25 milhões e 30 milhões, cita Pasin, da Value. "Trata-se de uma companhia com gestão pé-no-chão e que, apesar de ter o controle difuso, conta com um presidente que toca o negócio como se fosse o sócio majoritário." O baixo preço dos planos e as vendas cruzadas em varejistas como a Lojas Marisa transformaram a Odontoprev num caso de sucesso, acrescenta o chefe de análise da Link Investimentos, Celso Boin Júnior. Ele ressalva que tal estratégia, agressiva num primeiro momento, pode não render frutos duradouros, pois o consumidor tende a centralizar o seu seguro saúde numa única empresa.
Na linha de empresas defensivas, os especialistas ainda citam as elétricas CPFL Energia e Terna Participações, além da operadora de telefonia fixa GVT. Mais do que ser boa pagadora de dividendos, a CPFL é um exemplo clássico em que os fundamentos falam mais alto, enquanto a Terna, depois dos investimentos iniciais mais pesados nas suas linhas de transmissão, não tem mais o que despender, transformando-se numa geradora de caixa regular, diz Boin Jr., da Link.
A GVT, por seu lado, foi a empresa espelho que deu certo e que começa a se expandir para fora da sua região original, o Centro-Oeste, avançando por mercados como São Paulo, atuando no segmento corporativo. "Quando a Anatel (a Agência Nacional de Telecomunicações) permite expansão, a empresa não tem mais de cumprir metas de universalização de serviços e fica numa situação mais confortável do que as concorrentes", arremata o especialista da Link.
Fonte: Valor Econômico 10/11/2008
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