Empresas mantêm planos apesar do cenário de crise
 


Num momento em que várias empresas adiam investimentos devido ao agravamento da crise global, grandes projetos que contam com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) seguem o seu curso normal. Levantamento do Valor com 10 empresas que fecharam contratos com o banco a partir de abril, totalizando empréstimos de R$4,265 bilhões, mostra que o cronograma original de todos eles está mantido, apesar da piora da situação internacional. 

Um dos setores em que o dinheiro do BNDES tem bastante importância é o sucroalcooleiro, no qual várias companhias encontram dificuldades para financiar projetos de investimento. O grupo Santa Terezinha já obteve cerca de 20% do valor de R$168,5 milhões que deverá ser financiado pelo BNDES para implantar o projeto de co-geração de energia e expansão do parque industrial da unidade de Paranacity, instalada na cidade que leva o mesmo nome no Paraná. Segundo o departamento financeiro da empresa, o grupo solicitou a liberação da segunda parte do financiamento em outubro. "A liberação dos recursos está ocorrendo dentro dos prazos estipulados pelo banco", informou uma fonte da companhia. 

Já a usina Iacanga, do grupo Ipiranga,obteve a liberação de 74% do total dos investimentos previstos para expansão da capacidade produtiva da usina de açúcar e álcool e para a implantação do projeto de co-geração de energia a partir do bagaço de cana, de R$52,7 milhões. Segundo o departamento financeiro da empresa, não tem ocorrido demora na liberação dos recursos. 

O grupo Cosan, que tem nove projetos para co-geração de energia a partir do bagaço de cana, tem dois de seus projetos já financiados pelo BNDES, segundo Pedro Mizutani, vice-presidente geral da companhia. As usinas Costa Pinto e Rafard, ambas em São Paulo, terão financiamento de R$225,3 milhões do banco. Deste total, 15% do valor já foi liberado, segundo Mizutani. "Vamos pedir consulta para o financiamento de outros projetos." Se todos os projetos das nove usinas forem implementados, serão investidos cerca de R$2 bilhões, informou Mizutani. 

Os recursos do BNDES também têm peso na expansão das empresas do setor frigorífico. A injeção de R$700 milhões feita pela BNDESPar na Marfrig, por meio de uma subscrição privada de ações, em agosto de 2008, aumentou a musculatura da empresa e acelerou a aquisição de empresas da americana OSI no Brasil e no exterior, segundo Ricardo Florence, diretor de relações com investidores do grupo. Na Europa, a Marfrig assumiu a Moy Pork, além da Kitchen Range Foods (Reino Unido) e da Albert Van Zoonen (Holanda). No Brasil, a empresa ficou com a Braslo, a Penasul e a Agrofrango. Ao todo, o valor da transação foi de - US$680 milhões. 

No caso da Bertin, a capitalização feita pela BNDESPar neste ano, da ordem de R$2,5 bilhões - R$1,8 bilhão já aplicados -, permitiu que a empresa fortalecesse sua estrutura societária de capital e sua governança corporativa. O dinheiro está sendo destinado à modernização e expansão de unidades produtivas e aquisição de novas indústrias no Brasil e no exterior. 

Primeira empresa a admitir perdas com derivativos decorrentes da alta do dólar, a Sadia obteve junto ao BNDES, em junho de 2008, a liberação de um financiamento de R$329,8 milhões destinado a seu projeto agroindustrial de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. A Sadia informou que o valor equivale a 70% de um investimento que envolve, no total, a construção de novas unidades de abate de aves e de suínos, uma planta de industrialização de carne suína, uma fábrica de rações e um conjunto habitacional para funcionários. Apenas o abatedouro de suínos não foi concluído ainda, o que deve acontecer no máximo até fevereiro de 2009. 

Em setembro e outubro, a Vonpar Refrescos recebeu em torno de R$ 38 milhões de um empréstimo do BNDES, no total de R$91,5 milhões. O objetivo, segundo o presidente-executivo da Vonpar, Augusto César Parada, é a "expansão das unidades fabris e adequação de sistemas para suportar a operação da Vonpar no período de maior demanda, o verão". 

Parada disse que o cronograma não sofreu alterações por causa da crise, "basicamente porque 80% do mesmo se realizou entre o período do 4º trimestre de 2007 e o 1º semestre 2008". Ele destaca que outros projetos da Vonpar também não foram atingidos pela turbulência financeira. 

Rede de varejo que apostou na forte expansão dos negócios neste ano, o Magazine Luiza tem um empréstimo de R$76,5 milhões com o BNDES, para a abertura de 100 lojas e reforma de outras 30, além da aquisição de equipamentos para o centro de distribuição de Louveira, em São Paulo. A empresa informa que a crise não alterou nenhum plano de investimento da empresa. "Todas as ações previstas estão sendo realizadas como havíamos planejado." 

A Droga Raia também tomou um empréstimo do BNDES para financiar a abertura de novas lojas, no valor de R$90 milhões, que já estão sendo usados. "A rede está em ritmo de crescimento acelerado e o aporte de R$90 milhões ajudou neste momento", informou a Droga Raia. A empresa relatou que ainda não sentiu o impacto da crise, "Atuamos num setor privilegiado, oferecendo itens e serviços de primeira necessidade". 

Na Duratex, o cronograma de implementação de uma unidade industrial em Agudos, em São Paulo. também não foi alterado. O projeto começou no fim do primeiro semestre, com recursos da própria empresa, diz o diretor de Relações com Investidores da Duratex, Alvaro Penteado de Castro. O dinheiro do BNDES - R$30,8 milhões, cerca de metade do valor total - deverá ser liberado em breve, assim que for feita a comprovação para o BNDES do que já foi feito. Segundo Castro, o cronograma está mantido porque se trata de um projeto estratégico, ligado ao acabamento para a construção civil, para o qual há a expectativa de que as vendas continuarão positivas. 

Castro disse, porém, que a empresa adiou por seis meses investimentos de cerca de R$1 bilhão, de um total de R$1,9 bilhão, a serem realizados nos próximos cinco anos. "A decisão tem a ver com a mudança brusca de cenário causada pela crise, que provocou incerteza em relação à demanda futura", afirmou Castro. 


Fonte: Valor Econômico
12/11/2008