Crise de crédito é no mercado de títulos
 


Autoridades de todas as esferas do governo americano estão num esforço para encontrar uma maneira de fazer os bancos voltarem a emprestar. Parlamentares têm criticado os bancos por não usar o dinheiro recebido do governo federal para conceder crédito e ameaçaram impor condições sobre novas injeções de capital. Na semana passada, as autoridades baixaram uma norma incentivando os bancos a não restringir os empréstimos.  

Mas há uma falha nessa lógica. Na verdade, os bancos americanos estão emprestando a níveis recordes. Seus créditos comerciais e industriais totalizaram US$1,6 trilhão no início de novembro, segundo dados semanais divulgados pelo Federal Reserve, o banco central americano. No trimestre, isso foi 15% mais do que um ano atrás, e um crescimento de 20% a uma taxa anualizada. Empréstimos garantidos pela casa do tomador chegaram a US$578 bilhões no trimestre, alta de 20% em relação a um ano antes e de 48% quando anualizada.

Esses números indicam um dos maiores desafios desta crise. O aperto do crédito com certeza é real, mas é um fenômeno complexo e nada fácil de se administrar. Os bancos estão emprestando, mas também sofrem forte pressão enquanto agem como freios para um problema maior: a queda do mercado de títulos de investimento. 

O pior impacto da crise do crédito está sendo sentido não nos bancos, mas nos mercados de renda fixa. Os empréstimos feitos por um banco podem acabar ficando no seu balanço. De dez anos para cá cresceu o volume de empréstimos que eram agrupados em pacotes de títulos e vendidos a investidores no mundo todo - fundos de pensão, fundos mútuos, fundos de hedge e outros. Os investidores institucionais logo compravam esses e outros tipos de crédito que não vinham por meio dos bancos comerciais tradicionais, como títulos de alto risco ou "commercial papers". 

Para fazer o crédito fluir, as autoridades precisam sanar os mercados financeiros, assim como os bancos. Mas a confiança dos investidores nos mercados de crédito foi abalada, em parte porque muitos desses títulos de dívida tiveram desempenho muito pior do que o sugerido por suas classificações de risco. 

A emissão de títulos lastreados em ativos - instrumentos utilizados para incorporar dívidas de cartões de crédito e de empréstimos automotivos, durante o boom - caiu 79% no ano até outubro, em comparação com um ano atrás, baixando para US$142 bilhões, segundo dados da Dealogic. Em 2005 e 2006, os investidores compraram mais de US$1 trilhão desses instrumentos. A emissão de títulos de alto risco caiu 66% nos primeiros dez meses do ano em relação ao mesmo período de 2007. 

Um novo artigo dos economistas David Scharfstein e Victoria Ivashina, da Escola de Administração de Harvard, esclarece a maneira como a recente elevação dos empréstimos bancários entra na atual situação. Os empréstimos bancários estão subindo, dizem esses economistas, porque muitas empresas - desde a General Motors Corp. até o grupo editorial Tribune Co. - se voltaram para os bancos em busca de reforço de caixa. Com os mercados fechados, elas estão recorrendo às linhas de crédito disponíveis para cumprir seus compromissos, ou simplesmente para disporem de uma reserva financeira caso precisem. 

Muitas dessas firmas acumularam linhas de crédito durante a época da alta, quando os termos eram favoráveis. Entre abril de 2006 e abril de 2008, as linhas de crédito bancárias para emergência, conhecidas como fundos de crédito rotativo, aumentaram em 36% nos Estados Unidos, chegando a US$3,5 trilhões, como mostram os professores. 

É possível que as pessoas físicas estejam usando dessa mesma forma o crédito imobiliário, aproveitando para conseguir dinheiro enquanto as linhas continuam abertas. 

O ponto central é que os bancos estão sendo forçados a agir como pontos de apoio para um sistema financeiro abalado, num momento em que eles também estão vulneráveis. 

"Eles oferecem uma certa proteção para as firmas vulneráveis, ajudando-as a impedir o colapso financeiro", argumentam os autores do artigo. Mas existe um lado negativo perigoso. Na fase de vacas gordas, muitas dessas linhas de crédito foram oferecidas a firmas com perspectivas pouco sólidas, tais como a GM. Agora, os bancos estão sendo obrigados a emprestar a elas, mesmo que não queiram. Isso está consumindo seus recursos e os impedindo de fazer novos empréstimos a firmas em melhores condições, dizem os professores. 

A impossibilidade de novos empréstimos é um problema. Os mercados são outros. Durante o boom, muitos empréstimos bancários foram combinados em pacotes de títulos de dívidas. Agora que o mercado para esses títulos está em queda, os bancos perderam essa importante válvula de escape para fazer novos empréstimos. 

Usando uma base de dados diferente chamada DealScan, os professores examinaram novos empréstimos bancários concedidos a grandes empresas - o tipo de empréstimo que costuma ser revendido sob a forma de pacotes de títulos de renda fixa. Enquanto as carteiras de empréstimos bancários estão, de modo geral, aumentando, esse tipo de empréstimo, que antes era distribuído entre vários bancos e outros investidores, caiu em 46% no período de agosto a outubro em relação ao mesmo período um ano antes. 

Acrescente-se o fato de que muitos bancos estão com falta de capital porque foram obrigados a provisionar um grande volume de empréstimos de recebimento duvidoso. Scharfstein conclui, numa entrevista ao Wall Street Journal: "Talvez não seja realista esperar que os bancos emprestem mais agressivamente." 

Algumas autoridades do Federal Reserve estão preocupadas com as expectativas de Washington. O Tesouro americano investiu nos bancos US$250 bilhões em dinheiro novo. As autoridades do Fed acreditam que os empréstimos estariam muito mais difíceis se não fosse essa injeção de capital no sistema. 

Mas os congressistas, que vão se reunir esta semana em uma sessão legislativa de fim de mandato, esperam com impaciência resultados de maior envergadura. Também estão insatisfeitos com os bancos que pegam o dinheiro público com uma mão e pagam dividendos aos investidores com a outra. 

A próxima injeção de dinheiro talvez venha com condições a cumprir. Mas esse pode ser um jogo perigoso. Será que se pode esperar que os bancos emprestem muito mais, se já estão com falta de capital, esperando ansiosamente para ver se a GM vai devolver os últimos US$3 bilhões que tomou emprestado? 

Scharfstein diz que o passo mais importante é conseguir muito mais capital para os bancos, formando um  colchão para amenizar o baque dos empréstimos não-pagos. 

Se deve haver uma condição para mais injeções de dinheiro público aos bancos, diz ele, deve ser a seguinte: insistir para que os bancos não parem aí. Insistir para que eles levantem capital também com investidores privados. Na semana passada o Departamento do Tesouro informou que desejava tomar essa medida. 


Fonte: Valor Econômico
17/11/2008