Com a Nossa Caixa, BB será líder em SP
 


Seis meses após o anúncio oficial do início das negociações, o Banco do Brasil selou ontem a compra do controle do banco estatal paulista Nossa Caixa por R$5,386 bilhões. O pagamento será em 18 parcelas de R$299,25 milhões, corrigidas pela taxa básica Selic, a partir de março de 2009.

O negócio marca a entrada, de fato, do BB na atual corrida de consolidação do sistema financeiro nacional, que se acirrou no final do ano passado com a compra do Banco Real pelo Santander e agora com a fusão entre Itaú e Unibanco.

Para fechar o negócio, os governos federal petista e estadual tucano passaram por cima de possíveis rivalidades políticas e se juntaram contra os interesses dos maiores bancos privados, que foram a público pedir um leilão de privatização, como acontecia nos anos 1990.

Com a Nossa Caixa, o BB alcança a liderança em número de agências no Estado de São Paulo, a mais importante praça do país e onde até 2007 ocupava um modesto quarto lugar.

Juntos, BB e Nossa Caixa somarão 1.324 agências - posição superior aos 1.240 postos de atendimento de Itaú e Unibanco e de 1.204 de Santander e Real. O Bradesco, que tem 1.168 agência e ocupava a liderança no Estado antes da fusão Santander/Real, cai agora para o quarto lugar.

O presidente do BB, Antonio Francisco de Lima Neto, afirmou ontem que sem a Nossa Caixa o banco estaria agora em uma posição desvantajosa para competir no varejo bancário, após as uniões de Santander e Real e Itaú e Unibanco. "O negócio teve uma lógica desde o princípio. A gente ia ter de correr atrás se não tivesse agora a Nossa Caixa", disse.

Já o governador José Serra afirmou que quer usar o dinheiro para financiar investimentos de micro e pequenos empresários: "Nunca achei que governo estadual devesse ter um banco comercial, embora respeite quem tem".

Com a Nossa Caixa, o BB soma R$512 bilhões em ativos, mas ainda não consegue recuperar a liderança perdida para Itaú-Unibanco, que juntos somam R$575 bilhões em ativos.

Em depósitos, porém, o BB segue na liderança com R$158,6 bilhões, sendo R$48,6 bilhões - R$15,8 bilhões vindos da Nossa Caixa - provenientes de contenciosos judiciais, uma captação considerada barata e que interessava a todos os bancos. Além de não ter direito a receber os depósitos judiciais, Itaú-Unibanco somam só R$60,5 bilhões em depósitos.

A carteira de crédito de BB-Nossa Caixa, de R$213,7 bilhões, segue atrás da do Itaú-Unibanco, de R$225,3 bilhões.

Por conta da alta complementaridade geográfica, o BB minimizou a necessidade de demissões e afirmou que não terá necessidade de fechar mais do que 30 agências no Estado, todas em localidades pequenas em que não se justifica a necessidade de dois postos. A Nossa Caixa emprega 14,3 mil funcionários e o BB, 88,7 mil.

MUDANÇAS
A previsão é que a incorporação da Nossa Caixa comece em março, após a aprovação dos órgãos reguladores e respectivos acionistas, incluindo a Assembléia Legislativa paulista. A partir daí, a expectativa é que a incorporação demore só um ano, sendo que a marca Nossa Caixa deverá deixar de existir no final desse processo.

No total, o BB deverá desembolsar R$7,56 bilhões com a oferta integral aos acionistas minoritários do prêmio de controle de 37,68% sobre o valor das ações da Nossa Caixa, que fecharam anteontem em R$51,30. Só neste ano, as ações subiram 125% com a expectativa do negócio, um dos poucos na história do mercado acionário que respeitou o direito integral dos minoritários de receber o prêmio dado ao controlador.

O valor foi considerado elevado por analistas porque os últimos negócios envolvendo bancos saiu em cerca de duas vezes o valor patrimonial, contra 2,37 do anunciado hoje.

Para justificar o alto valor que será pago ao governo Serra, Lima Neto afirmou que o BB espera ganhar em sinergias entre R$2 bilhões e R$5 bilhões nos próximos cinco anos.

O banco deverá ainda ativar um beneficio fiscal de R$1,8 bilhão, relativo ao ágio pago pela aquisição - no país, o ágio conta com isenção fiscal. O valor do benefício fiscal decorrente da operação ficou ainda bastante atrás do que será ativado pelo Itaú na fusão com o Unibanco, estimado em R$7,9 bilhões.

Segundo Aldo Mendes, vice-presidente financeiro do BB, só um terço dos ganhos de sinergia virão de corte de custos. Os outros dois terços decorrem da estimativa de receitas adicionais, a partir da venda cruzada de produtos, afirmou.


Fonte: Folha de S.Paulo
21/11/2008