Cautela deve dominar início de 2009
 


Nos últimos meses, dados sobre o desempenho das micro e pequenas empresas no Brasil mostram que o setor parece imune à crise financeira global. Números divulgados em setembro, mês em que os mercados travaram, mostram ligeira alta no faturamento. Mas não há certezas de que esse cenário possa se manter no início de 2009. Há uma expectativa de que o segmento apresente resultados tímidos para esse período, que já é considerado fraco. Representantes da indústria acreditam que a partir de abril ou maio do ano que vem, o mercado volte a ter indicadores positivos mais fortes. "Um comportamento defensivo deve se manter no começo do ano que vem, como 'efeito arrastão' da crise. Mas acreditamos que a partir de maio, com o reajuste do salário mínimo, o cenário melhore", diz Marco Aurélio Bedê, coordenador do Observatório das Micro e Pequenas Empresas do Sebrae-SP. A estimativa é que neste ano, os pequenos negócios cresçam em torno de 5%. Para o ano que vem, a expansão deve ficar numa taxa próxima à registrada em 2008, informa o Sebrae SP.

Os resultados não são considerados desprezíveis. É preciso lembrar que um crescimento em torno de 5% em 2009, se acontecer, será em cima de uma base forte. Além disso, qualquer expansão acima de 4% já pode superar o crescimento do PIB brasileiro. O governo trabalha com a hipótese de expansão econômica de 3,8% a 4% em 2009. 

Pesquisa que acaba de ser publicada pela entidade mostra que 57% dos pequenos empresários acreditam numa ampliação no seu faturamento nos próximos seis meses. Cerca de metade deles (52%) espera uma melhora da economia brasileira no próximo semestre. No entanto, não há garantias e os especialistas preferem ressaltar a necessidade de cautela no setor. "A crise provocou uma confusão de preços. Commodities, petróleo, o próprio crédito e os insumos em geral passaram a ter fortes variações em curto espaço de tempo. Isso faz todo mundo desacelerar um pouco", diz Bedê. 

Na tentativa de orientar os empresários de pequeno porte para o ano de 2009, o Sebrae de São Paulo decidiu criar uma cartilha batizada de "Como agir na crise" com informações sobre como driblar o atual cenário delicado, e tirar proveito dele. A idéia é mostrar como há perdas e ganhos possíveis para um mesmo negócio nos próximos meses, a depender do ramo de atuação de cada empresa. "Não dá para sabermos a dimensão da crise econômica mundial, porém não ficaremos imunes a ela. Como os fundamentos econômicos do país se fortaleceram nos últimos anos, espera-se que os efeitos não sejam demasiadamente fortes, mas não há garantias sobre isso", informa o material. "É preciso manter a calma, apesar de tudo. O momento exige cautela, atenção, sensatez e disposição para eventuais ajustes", afirma Paulo Arruda, diretor-técnico do Sebrae-SP.  

Essa mesma sensatez fez com que a empresária Miriam Albagli, dona do Pão da Villa, decidisse colocar o pé no freio. Ela tinha plano de abrir franquias em 2008, mas vai esperar alguns meses. "Nós continuamos a produção para a venda ao atacado, mas parei de entregar ao cliente do varejo e também vou esperar até o ano que vem para abrir franquias", diz ela. "Não tem como fazer nada agora. Espero que até o final do segundo semestre de 2009, o projeto já esteja na rua", afirma ela, que criou a empresa seis anos trás. 

Quem também teve de rever os planos foi a Infraplast Indústria e Comércio de Plásticos, que presta serviços na área de injeção de plásticos para médias companhias. "Nos últimos dois ou três meses, os pedidos caíram mais de 50%", diz a sócia Margareth Aguiar. "O petróleo está em baixa, mas o dólar disparou. Achamos que haveria uma compensação de um pelo outro, mas isso não ocorreu", diz a empresária. Ela acredita que, apesar das dificuldades, o faturamento da empresa se ampliará entre 10% e 13% em 2008. Para o próximo ano, não há previsão fechada. 

Na avaliação de especialistas, devem variar os impactos da crise sobre as empresas em 2009. Dependerá, em parte, das características do negócio. As pequenas empresas que vendem produtos populares tendem a ser as menos afetadas. Isso porque os salários menores continuarão com tendência de recuperação real. Aquelas que vendem produtos mais caros podem ter condições de financiamento ao consumo mais desfavoráveis. Outras que enfrentam concorrência de produtos importados podem ser até beneficiadas, porque os produtos importados ficarão 20% mais caros (supondo um novo patamar de equilíbrio próximo a R$ 2,00/R$ 2,10), informa a entidade. 

Com a expectativa de novas negociações entre empresas e fornecedores, para atender os pedidos do verão 2009, os especialistas dizem que pode ocorrer alguma queda nas encomendas e pressão para redução de preços. As micro e pequenas empresas que vendem para grandes grupos tendem a sentir essa pressão maior. O que já é praticamente certo, até porque já faz parte do cenário atual, é a dificuldade de as companhias obterem novos recursos. Para o próximo ano, isso não deve mudar. A orientação da entidade é muito clara. "Mais do que nunca, é fundamental o empreendedor mostrar ao banco que tem total controle sobre as contas da empresa, despesas, vendas e lucros. É necessário mostrar a viabilidade econômica do empreendimento", relata informe do Sebrae SP. 

Até o momento, o setor parece caminhar de forma mais descolada da crise financeira. Em setembro, as micro e pequenas empresas paulistas apresentaram leve aumento de 0,7% no faturamento real em relação ao mesmo mês do ano passado, descontada a inflação no período. A expansão representou R$ 22,8 bilhões a mais nos caixas das empresas. "Esses dados positivos são reflexos dos bons negócios feitos até o momento, que englobam as entregas de Natal. Além disso, é preciso lembrar que esse empresário mais otimista é ágil e flexível e conta com a sua capacidade de se adaptar às crises para continuar vendendo", diz Antonio Carlos de Matos, gerente de Orientação Empresarial do Sebrae-SP. De acordo com o IBGE, o Brasil possui 14,8 milhões pequenos negócios, sendo 4,5 milhões de empresas formalizadas e 10,3 milhões de informais. Juntos, elas respondem por 28,7 milhões de empregos e por 99,23% dos negócios do país. 


Fonte: Valor Econômico
27/11/2008