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Para as empresas listadas em bolsa, os tempos de crise são traduzidos por ações em baixa e, conseqüentemente, redução nos volumes financeiros negociados - independentemente do desempenho operacional dessas companhias. Esse quadro, que atinge a todas, é ainda mais prejudicial para as companhias menores, que já não possuíam giros elevados e, agora, estão muito perto do R$1 milhão em média por dia, ou já abaixo desse valor.
Esse volume é patamar mínimo para que os grandes gestores acompanhem as ações e tenham interesse em colocá-las em suas carteiras. Logo, sem essa liquidez mínima, novas companhias tendem a ficar esquecidas na Bovespa.
Levantamento feito pelo Valor Data, que acompanhou os volumes negociados pelas empresas que abriram capital nos últimos quatro anos, verificou que 31 estão nessa situação delicada. Desse total, 27 lançaram ações em 2007. Por setores, a maior representação é a do imobiliário, com seis empresas, e dos bancos médios, com quatro instituições.
É fato que liquidez é um ponto importante para quem se lista na bolsa. A maior visibilidade perante os investidores vem com o ingresso nos índices e os principais da bolsa, como Ibovespa ou IBRX, têm essa condição como critério para permitir o ingresso de novos papéis.
O aperto de liquidez de algumas companhias teria desencadeado avaliações do tipo "éramos felizes e não sabíamos" (antes da abertura de capital) e algumas delas, diante da forte quedas das ações, teriam cogitado o fechamento de capital.
O Valor procurou as empresas de pequeno e médio porte que perderam liquidez na bolsa e onze concordaram em falar sobre assunto. De forma geral, afirmaram que em nenhum momento se arrependeram da operação, pois conseguiram se capitalizar e alcançar um tamanho que sem a oferta não seria possível hoje. Também ressaltaram os ganhos em termos de governança e profissionalização de seus negócios.
Catarina Pedrosa, chefe da equipe de análise do Banif, classifica como muito negativa a perda de liquidez. "Por qual razão a empresa estaria na bolsa se não estiver sendo acompanhada pelos investidores? Ela se lista por querer em determinados momentos captar recursos a custos mais baixos, mas se ela estiver esquecida no pregão não terá as mesmas condições das mais líquidas para usufruir desses benefícios", diz Catarina.
As empresas que conversaram com o Valor observaram, no entanto, que este momento, ainda de crise severa, é de mercado de capitais fechado - para todos. E, na avaliação delas, permanecerá por mais tempo ainda nessas condições de restrições quando o assunto for companhias de pequeno e médio porte. "Acreditamos que uma reabertura só virá em 2010 para as empresas com esse perfil", diz Gennaro Oddone, diretor de relações com investidores da Tegma Gestão e Logística.
Mas Catarina, do Banif, diz que se quando o quadro de demanda se reverter e essas companhias não conseguirem captar, restará a elas apenas o custo de ser companhia aberta.
A dúvida no mercado agora é se, no momento em que o sistema financeiro global se normalizar, essas empresas conseguirão retomar os patamares de negociação.
Herculano Alves, diretor de renda variável da Bradesco Asset Management (Bram), observa que a crise teve sim seu papel na redução da liquidez, mas muitas das companhias que estão perdendo negócios também não estão entregando os resultados que prometeram. Ou então, já chegaram à bolsa com uma base acionária concentrada em poucos investidores.
"Quem, além da crise, também decepcionou os mercados terá poucas chances de recuperar liquidez quando a situação acalmar", diz Alves. "Mas o passado mostra que quando a companhia é boa, vai bem operacionalmente e os resultados vão aparecendo, os investidores também." Ou seja, se a própria mudança de perspectivas e desaceleração econômica, também trazidas pela crise, levarem a um replanejamento dos negócios e essas companhias voltarem a corresponder expectativas, ela podem recuperar as atenções.
A avaliação é compartilhada por José Augusto Miranda, chefe da mesa da HSBC Corretora, ressaltando que se a empresa for bem administrada, a recuperação virá, embora a médio e longo prazos. Miranda acredita que o fato de a lista ser majoritariamente composta por papéis de empresas que vieram a mercado em 2007 pode ser explicado elo fato de que muitas estrearam já no momento da crise e ficaram sem novos compradores.
Para o executivo do HSBC a situação de giro muito fraco é problemática, já que e muitos investidores não olham para papéis com liquidez muito baixa. "Existem, inclusive, instrumentos que calculam o risco dos investimentos e que levam em conta os volumes negociados", afirma Miranda.
"Imagine um gestor, que recebe um mandato para cuidar do dinheiro de investidores. A responsabilidade é grande e é natural que ele pense duas vezes antes de entrar em um papel se achar que terá dificuldades para sair da posição", afirmou.
Orlando Viscardi, diretor financeiro e relações com investidores da Rodobens Negócios Imobiliários, argumenta que as ações com giro menor não estão no foco de grande parte dos investidores, mas há também um perfil de aplicador, para quem a liquidez não é um impeditivo, que terá interesse nesses papéis.
Alves, da Bram, também reconhece que da mesma forma que houve um crescimento de empresas listadas na bolsa, houve o surgimento de novas administradoras de recursos no país, que podem prestar atenção a diversos tipos de papéis.
Mas ele ressalta que muitas ofertas iniciais ano passado vieram a preços muito altos, superestimados até. "Quem comprou nesses preços, e em seguida encarou a crise, pagou a conta. Registrou perdas com as ações e agora tende a ter um mau humor com papéis menos líquidos", diz.
Rodrigo Lopes, diretor da Banif Primus, argumenta ainda que o que se vê, hoje, é o encolhimento dos mercados. "Nesse quadro também é possível que os recursos administrados por muitas casas tenham diminuído e elas mesmo podem rever esses limites de liquidez média diária mínima de R$ 1 milhão", avalia.
Marcio Fenelon, do departamento de relações com investidores da JHSF, observa que o mercado tem uma tendência a perpetuar a situação atual.
"Se o ambiente está muito ruim, acha que ficará assim para sempre e o mesmo vale para o contrário, quando há euforia", afirma. "Mas, na verdade, as situações são transitórias." Na visão de Fenelon, alguns fundos de investimento têm capacidade de agüentar trancos e estão até comprando, ainda que seletivamente, outros, de curto prazo, não, e então se defendem vendendo.
"Existem investidores para todos os tipos de liquidez . O tamanho não é um impeditivo para que a empresa faça um bom trabalho. Há vários estilos de investidores e, portanto, se a ação de uma empresa estiver negociando pouco na bolsa, isso não quer dizer que a vida acabou", diz.
Fonte: Valor Econômico 01/12/2008 |