Empresas reduzem posição em derivativos
 


Passados pouco mais de três meses do estouro da crise envolvendo a exposição das empresas brasileiras a derivativos cambiais, o quadro acabou se revelando menos grave do que o esperado. Apesar de algumas empresas ainda passarem por sérias dificuldades e algumas terem reconhecido perdas bilionárias - que levaram alguns analistas a rotularem o problema de "subprime brasileiro" - o processo de renegociação realizado com os bancos acabou desinflando a bolha formada pela aposta equivocada de que o real manteria o processo de valorização em relação ao dólar.

Pelos dados mais recentes da Cetip, que concentra os negócios com os chamados derivativos de balcão - realizados diretamente entre as empresas e as instituições financeiras -, a exposição líquida em contratos cambiais, que chegou a US$30 bilhões no pior momento da crise, no final de setembro, diminuiu para US$19 bilhões. Se tivessem de ser liquidadas hoje, as operações levariam a uma perda total de US$2 bilhões, valor bem inferior aos US$40 bilhões estimados pelo mercado.

De acordo com o diretor de relações com participantes da Cetip, Jorge Sant''Anna, houve também uma redução das operações alavancadas, como os derivativos exóticos realizados por empresas como Aracruz, Sadia e Votorantim, que juntas registraram um prejuízo de quase US$4 bilhões. Isso significa que uma nova desvalorização do real hoje teria efeitos menos devastadores do que há três meses. "Os contratos que existiam venceram e não entraram novos desde então", afirma.

Uma perda muito grande de valor da moeda brasileira, aliada a uma queda significativa das exportações, porém, ainda representa um risco para as empresas que possuem derivativos, alerta o executivo. Pelos dados da Cetip, as companhias brasileiras ainda possuem posições vendidas de cerca de US$50 bilhões em contratos cambiais. Desse total, US$6 bilhões se referem aos derivativos exóticos.

Uma redução muito significativa nas vendas externas brasileiras colocaria as empresas em dificuldades tanto do ponto de vista operacional como financeiro, segundo Sant'Anna. "Além de não receber o valor esperado pelas vendas, elas ainda teriam de honrar os contratos em dólar." No atual nível de exposição, o executivo acredita que novos problemas podem voltar a ocorrer apenas se a moeda norte-americana voltar a superar se manter acima do patamar de R$2,50.

O diretor da Cetip afirma que o momento crítico da crise ocorreu em setembro, quando a disparada do dólar tornou as empresas em devedoras da noite para o dia, em um momento no qual o crédito havia desaparecido, inclusive para operações triviais, como o Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC). Para se ter uma ideia da reversão do cenário, se todas as posições tivessem sido liquidadas em agosto, o caixa das companhias engordaria em US$4 bilhões. "No mês seguinte, com a disparada do dólar, o ajuste passaria a ser negativo em US$3 bilhões", calcula Sant'Anna.

Diante das perdas iminentes, algumas companhias ameaçaram não pagar os bancos, que por sua vez precisavam honrar diariamente as posições assumidas na BM&F Bovespa para cobrir o risco cambial. "O quadro não era tão ruim quanto parecia, mas as especulações de que haveria quebra de contrato quase levaram a uma crise institucional." A situação ficou ainda mais grave com a revelação de que empresas de grande porte também fizeram apostas elevadas contra o dólar, e com a notícia de que as operações seriam contestadas na Justiça.

Sant'Anna afirma que o rápido processo de renegociação dos contratos comandado pelos bancos evitou um agravamento da situação nos meses seguintes, mesmo com a maior valorização da moeda norte-americana. O principal problema dos derivativos, diz, era o ajuste mensal previsto nos contratos, que poderia comprometer o caixa das companhias. "Hoje essa questão está equacionada, depois que os bancos estenderam os prazos e adiaram as datas dos ajustes."

LIÇÕES
Na avaliação do diretor da Cetip, o mercado já trabalha para evitar que uma situação semelhante se repita. Uma das providências da instituição foi cobrar dos bancos uma atualização mais frequente das posições com derivativos, que permitirá calcular mensalmente o valor de todos os contratos registrados. Para ele, o modelo brasileiro é "ímpar" no que se refere à transparência de derivativos de balcão, mas reconhece falhas no modelo que permitiu às empresas assumirem mais riscos do que deveriam.

O principal erro, porém, partiu dos sistemas de controle de risco das próprias companhias, segundo Sant''Anna. "A gestão de risco deve ser tão importante quanto a administração de capital de giro", defende. A Cetip começa a implementar a partir deste ano um programa de educação em derivativos nas empresas. O executivo afirma que, mesmo no auge da crise, a exposição a esse tipo de instrumento ainda estava em patamares baixos. "Enquanto nos países desenvolvidos os derivativos de balcão representam até dez vezes o Produto Interno Bruto, no Brasil esse número chega a apenas 25%", compara.


Fonte: Gazeta Mercantil
13/01/2009